O Algarve e o Naufrágio da Representação Política
Setembro 2026
O Algarve tem a importância que tem, nem mais um centímetro para a esquerda ou para a direita. No entanto, quem determina essa relevância somos todos nós. É no contexto desta premissa que podemos afirmar, com amargura, que temos o que queremos e não o que merecemos. Temos falhado coletivamente no velar pelos nossos próprios interesses, talvez por culpa das escolhas que fazemos ao eleger as figuras que nos representam na Assembleia da República. Falta-nos, há muito, a coragem de lhes fechar a porta e dizer com clareza: "Não, vocês não nos interessam."O Partido Socialista enfrenta um problema nacional que empalidece face à sua crise regional. Os líderes locais vivem subjugados ao poder central, nunca se conseguindo afirmar como uma verdadeira força regionalista. Esta submissão tornou-se gritante no passado, quando escolheram para cabeça de lista às legislativas um João Soares obscuro, sedento de um protagonismo que a sua manifesta mediocridade intelectual nunca permitiu alcançar. Para tentar resolver este vazio, o PS tem repetido escolhas pouco inteligentes. A atual liderança regional — independentemente do valor pessoal da figura em causa — peca pelo facto de ser exercida por um Presidente de Câmara em funções, alguém que não pode dedicar o seu tempo e foco à reconstrução e às reais necessidades do Algarve. Do outro lado do espectro, o PSD, navegando num claro desnorte, tem deixado o caminho livre à sua direita. O Chega tem aproveitado este vácuo para se organizar e, se continuar a conseguir atrair para as suas fileiras quadros de outro calibre, acabará por dar cartas na região. No fundo, tanto o PSD como o PS revelaram até agora a mesma incapacidade: nenhum deles sabe capitanear o barco algarvio. Continuar a dar força a quem já deu provas de não ter capacidade para resolver o problema em que todos estamos metidos é um erro crasso. Ouvi com redobrada atenção os últimos discursos dos líderes regionais e, no meio de acusações mútuas e de tanta bacorada, esperei em vão ouvir algo de novo. A decadência é tal que nem para utilizar as suas próprias ideias eles já têm engenho; enquanto falavam, só me vinham à memória velhas palavras e velhas ideias, mas que faziam muito mais sentido noutras bocas.Há uma linha clara que separa a decência da indecência. Hoje em dia, essa linha está centrada na Assembleia da República que, pela mão destes deputados, foi transformada num antro de mediocridade e de profunda promiscuidade. O Algarve precisa de acordar antes que seja tarde demais.
António Guimarães