Lili ou Lulu é indiferente
Janeiro 2026
Concordo plenamente com a postura neutral de Luís Montenegro. O candidato que ele apoiou na primeira volta das legislativas teve um resultado humilhante, o que deixou o PSD numa posição delicada. Diante disso, havia duas hipóteses: apoiar André Ventura — algo que Montenegro já considerou impossível — ou apoiar Seguro, o que, na visão de muitos, significaria renegar os princípios do partido. Olhando para o perfil dos candidatos, parece claro que o PSD não pode alinhar-se com alguém de clara origem ou discurso de esquerda. O PSD é um partido de social‑democracia e direita moderada; apoiar um candidato de esquerda seria, para muitos eleitores, uma contradição difícil de aceitar. Importa também distinguir direita moderada de direita radical. A etiqueta “extrema‑direita” é muitas vezes usada de forma indiscriminada, mas nem toda direita radical implica a negação da democracia. Vejamos Itália: com Giorgia Meloni ao leme, a democracia não desapareceu; as eleições decorrem normalmente, a governação é normal e as relações internacionais recuperaram terreno em alguns aspetos. Essas nuances merecem ser consideradas antes de alarmismos extremista. Neste momento os extremistas que operam em Portugal estão nitidamente à esquerda. O discurso que pinta André Ventura como um futuro ditador é exagerado e injustificado à luz das suas publicas intervenções que o comprometem. Critico Ventura por demagogia e falta de propostas concretas, mas transformar o cenário numa narrativa de fim da democracia e regresso do fascismos não ajuda o debate público. Ventura é incisivo ao apontar problemas, mas falha em ao apresentar soluções consistentes — e isso é, por si só, um motivo de preocupação e principalmente de não aceitação. Do outro lado, Seguro, o moderado tende a ser percebido como conformado e sem grande capacidade de transformação — um presidente que pouco, efetivamente, acrescentaria. Entre um outsider que fala muito e propõe pouco e um moderado que inspira pouca mudança, fica difícil entusiasmar o eleitorado. No dia 8 de fevereiro, os cidadãos vão votar não apenas em personalidades, mas numa visão de país. A escolha será entre o risco de um discurso populista sem projeto claro e a manutenção de uma presidência de perfil baixo e pouca ação. É legítimo exigir mais: propostas concretas, compromisso com a democracia e claridade sobre o rumo que se quer dar ao país. Se queremos um debate público maduro, é preciso afastar tanto a caricatura do “fim da democracia” quanto a complacência com a mediocridade. Exigir propostas e responsabilidade deve ser o critério central na hora de votar. E, claro, constatar, o nosso azar por não haver um candidato à altura das necessidades do país e das adversidades que se avizinham
António Guimarães