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Juliana

Julho 2026

Numa das minhas frequentes deslocações a Lisboa, ia pela Duque de Loulé à procura da 3M quando ouvi uma voz estrangeirada a dizer o meu nome. Não liguei, podia ser com outra pessoa. Mas a voz insistiu e algo me fez ter a certeza que era comigo. Virei-me e vi uma mulher cuja fisionomia não me era estranha. Aproximou-se e perguntou se eu não era o António. Respondi que sim, mas que não a estava a reconhecer. Ofendida, disse-me: “sou a Juliana, a tua namorada”. Incrível como uma palavra abre um livro inteiro de recordações paradas no tempo, prontas a despontar. Era a minha Juliana. Ainda éramos namorados, porque tínhamos prometido que só acabaria quando um de nós quisesse. Nunca quisemos. A distância ditou que as cartas fossem escasseando até pararem, mas nunca quebrámos o elo. Lembro-me do dia em que, solitário, pela meia praia fui andando até ao forte com o pensamento constante nela. Éramos cúmplices, amigos, inseparáveis. Mas os pais dela iam partir para o Canadá. O pai, engenheiro de minas, aceitara um emprego definitivo. Juliana, com 17 anos, partiu. Eu, com 16, fiquei destroçado. Não tive coragem de lhe jurar amor eterno. Ela foi-se embora a chorar. Eu, perdido, vagueei até à barra de Alvor e regressei de noite, derrotado. Nesse ano chumbei, no seguinte também. A ausência dela pesava demasiado. Juliana ficou quase 40 anos sem voltar a Portugal. Os pais moldaram-se ao Canadá e nunca regressaram. Eu pensava que ela me tinha esquecido. Mas não. Reencontrámo-nos e, apesar de ambos casados, mantivemos um namoro distante via MSN. Há quem destrua casamentos nas redes sociais; eu reavivei uma amizade e cimentei o meu casamento. Juliana casou com um canadense, professor de português em Toronto. Nesse dia cumprimentou-me efusivamente e disse já me conhecer: “você é o namorado da minha mulher, não?” Rimo-nos envergonhados, mas o alimento ao ego que recebi não tem descrição. É bom saber que não somos esquecidos. É bom mesmo!

António Guimarães