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Amigos pra vida

Agosto 2026

Há amizades que são para a vida, sem necessidade de uma presença constante. É amizade e mais nada. Seja lá o que for que nos vá acontecendo pela vida fora, ela mantém-se sempre na mesma bitola. Há uns anos, pensei exatamente nisto quando um amigo partiu. Senti uma dor imensa, algo que não senti com nenhum dos familiares que perdi. Era um amigo do coração. Depois partiu outro, e a seguir outro do peito. E agora foi, talvez, o meu amigo de sempre — aquele que nem me lembro de quando conheci, parece que foi desde sempre. Não o via todos os dias, nem todos os meses, nem sei se uma ou duas vezes por ano, mas era um amigo do peito. Daqueles que seria impossível dizer: 'Não me lembro do nome dele'. A dor é indescritível e incomensurável. É uma dor de ausência. Uma dor daquelas que dói a valer, que embarga a voz e bloqueia o pensamento. Ficamos estáticos sem sber o que fazer nem o que pensar e muito menos dizer. É a dor impossível de descrever. É um amargo de boca. O meu amigo de sempre partiu e, apesar de termos combinado um dia avisarmo-nos mutuamente, foi-se embora sem me dizer nada. Não sinto pena ou mágoa por ele não ter avisado; foi porque tinha de ser. Mas isso não diminui esta dor imensa da ausência. Bastava-me saber que ele estava ali.

António Guimarães