Intemporal

Bruno Saches Homo Paciência

2015

A história que vou contar recebi num e-mail e passo a tratar o autor por “Bruno”, nome falso, como é evidente. Pediu-me o anonimato, mas não se referiu a ocultar o conteúdo, o assunto, assim sendo, não digo o nome mas vou revelar a história mirabolante deste homem que resolveu ir à procura de vida nova lá para os lados dos States não sem antes se ter aventurado pela Austrália. O Bruno, no auge dos seus 35 anos, com um emprego de bancário assegurado por uma competência a toda a prova, comprovada, certo dia sente-se mal e pede a um colega que o vá levar a casa. No trajecto, de Albufeira a Vilamoura, o colega começa a ter atitudes estranhas e reveladoras de uma latente homossexualidade. O Bruno, espantado, avisa o colega que não deve ter esperanças porque para além de ser casado, e bem, diz o Bruno, não está nos seus planos ter qualquer tipo de experiência dessa ordem nesta altura da sua vida. As coisas ficam assim até ao fim do trajecto. O Bruno sai do carro e meio desajeitadamente diz ao colega que não quer que ele suba, não vale a pena. O colega arranca com o carro e saí dali visivelmente aborrecido pelo insucesso da tentativa e por se ter exposto enquanto homossexual. O Bruno sobe as escadas muito aborrecido com a situação mas mais porque o elevador se encontra avariado desde há mais de dois meses e o Administrador do prédio não consegue reunir o consenso de todos os condóminos para trocarem de elevador e reporem a normalidade. As escadas são um martírio que tem que gramar todos os dias. Quarto andar? Sim, quarto andar todos os dias pelo menos duas vezes. Mas lá vai ele satisfeito por ao menos o chefe ter sido simpático e tê-lo deixado ir descansar para casa. Abre a porta de casa que dá directamente para a sala e vê uma desarrumação enorme com imensas peças de roupa espalhadas pelos maples, cadeiras e chão, “eu não tenho filhos” pensa o Bruno completamente desajustado daquela realidade e pensando, até, que se tinha enganado na porta de casa. De imediato fecha a porta e junto ao elevador avariado joga a mão ao queixo e à cara. Está a suar descontroladamente. Na realidade aquela era a sua porta de entrada em casa. Abre-a e sem hesitar entra no corredor estreito de paredes cobertas de quadros com fotos dele e da Raquel, prova indiscutível do seu amor e das viagens que realizaram juntos. Dirige-se para o quarto que tinha a porta meio aberta e ouve uns gritinhos meio surdos. Espanto dos espantos! A sua Raquel estava deitada, completamente nua e de pernas escancaradas. De rabo para o ar, numa atitude de sexo oral puro, a sua amiga Beatriz procedia ao que ele chamaria de acto sexual no verdadeiro acesso da palavra. Olha para o Lado e vê a Margarida com um enorme ar de espanto, completamente desgrenhada, sem voz e de olhos esbugalhados a empurrar a Isabel com ambas as mãos e desesperada. A Isabel estava de joelhos acariciando o sexo e tentava a todo o custo continuar na sua prazenteira tarefa. As quatro amigas, há muito inseparáveis, estavam completamente despidas de roupas e fazendo sexo, divertindo-se num menage a quatro. O Bruno não conseguia articular palavra. Nunca lhe passaria pela cabeça vir um dia a presenciar uma cena daquelas. Sai dali, espantado, angustiado, incrédulo, mas não sem antes se dirigir à sua mulher dizendo-lhe que a aguardava na sala e pediu que convidasse as amigas a se vestirem e a sair de sua casa. Elas assim fizeram e a Raquel veio para a sala já vestida. O processo foi simples, inteligente e pouco demorado. O divórcio aconteceu naturalmente e o Bruno decidiu que iria ter com o seu amigo Miguel a Perth, na Austrália. O Miguel era a sua salvação porque tinha poucos amigos mas aqueles de escola eram verdadeiros e fiéis. Em menos de dois meses tratou de tudo e foi-se embora. A sua vida tinha entrado num descalabro puro e até o apartamento teve que dividir. Venderam-no. Assim não havia lugar a hesitações nem razões para ficar. No Banco tinha conseguido referências que lhe permitiram arranjar um contrato imediato num banco internacional a operar na Austrália. Chegado à Austrália e ainda não totalmente refeito do divórcio é confrontado com a forma como o Miguel vivia com o Bob, com o qual pretendia casar. Imagine-se! Aquilo era demais, ele não estava preparado para aquilo. O Bruno achou que não conseguia coabitar com aquela situação. Saiu de lá e alugou uma casa mesmo no centro da cidade, um lugar espectacular. Mas ele não percebeu bem o que estava a passar e não aceitou aquilo de bom grado. Durante umas semanas não conseguiu dormir em condições. Ao oitavo mês de estadia e numa tentativa de refazer as boas relações o Miguel promove um Jantar onde foram convidados diversos amigos. O bom do Bruno foi assediado pelo Mário, um português, modelo fotográfico que vivia também em Perth e que já conhecia o Bruno de ser seu cliente em investimentos na bolsa, que garantia estar perdidamente apaixonado pelo Bruno. A esta altura o Bruno já jurava que isto só podia ser uma orquestração de alguém contra ele. Em menos de um ano tudo quanto lhe acontecia de interesse tinha a ver com hossexualidade. O Mário jurava matar-se caso o Bruno não o aceitasse. O Bruno jurava acabar com a vida caso estas cenas continuassem. Mas o melhor estava para vir, o Bruno, umas semanas após este jantar e quando já quase tudo estava esquecido, percorre o caminho em direcção à saída do Parque, mesmo em frente da sua casa, com um sorriso na cara ao rever todas as cenas que lhe aconteceram desde aquele dia em que o colega o provocou sexualmente, e eis que um sujeito se dirige a ele e lhe pede com um ar choroso para ele voltar para casa, que o ama muito e que não consegue viver nem sequer mais um dia sem ele, estendendo-lhe a mão suplicante. O Bruno nunca tinha visto na sua vida semelhante pessoa, não o conhecia de lado nenhum. Aquilo era demais, agora até fisionomicamente o confundiam com homossexuais. Nesse mesmo dia decidiu que abandonaria o País ainda que perdesse o excelente emprego que tinha como analista de investimentos no BSTT. E assim foi. Telefonou aos pais e revelou-lhes que teria que ir viver com eles uns tempos visto que as coisas se tinham precipitado e estava inviabilizada a sua permanência naquele País. O Pai, com uma voz estranha revela-lhe que ele e a mãe se encontram num processo de divórcio meio confuso e a atirar para o litigioso, não lhes convinha nada, nesta altura ter um dos filhos em casa. O Bruno não se convenceu e telefonou à mãe. Pesaroso perguntou o que se passava, nem queria acreditar no que o Pai lhe tinha dito. A mãe, chorosa mas furiosa, com uma voz firme disse-lhe: “O teu pai deu em paneleiro, filho, em paneleiro sim, acredita, e tem um amante com quem mantém uma relação há mais de dez anos”. O Bruno vive hoje em parte incerta nos Estados Unidos e é muito feliz com o Greg.

Depois de tantas voltas e desilusões, Bruno descobriu que a vida só faz sentido quando se aceita a mudança e se abraça o inesperado.

António Guimarães