As Palmeiras do Oasis
Começou a ser escrito em Abril 29, 2010 hoje 25 de Novembro de 2025 reli e talvez lhe dê continuação
O casal, João e Ana Salgado, discutia como habitualmente de forma agressiva, resultante dos anos de intenso convívio. Encerrando a discussão e já com os ânimos calmos, aconteceram uns momentos de amor intenso. Para celebrar o entendimento decidiram ir ao restaurante italiano localizado na frente do prédio onde habitam, sem que antes fossem ver um cinemazito para rematar a reconciliação.
De regresso a casa, charmosa com uma decoração antiga, no intervalo entre o cinema e a refeição, voltaram a acontecer cenas de amor intenso. Os corpos nus e fogosos contrastavam com os sofás de estilo e os cortinados duros e austeros que os resguardavam dos olhares inconvenientes. Tudo nada tinha a ver com o prédio moderno, mas facilitava o ambiente de felicidade. A zanga agora parecia distante e absurda. Os gritos e as acusações pareciam coisa do passado.
No restaurante, como sempre e tradicionalmente, ocuparam uma mesa dos fundos com duas velas vermelhas, gentileza do chefe de sala que os conhecia de longa data e adivinhava o que tinha acontecido. Já anteriormente tinham havido comentários. A conversa estava das mais agradáveis de sempre, mas ainda assim conduzida com alguns percalços, resquícios da mal acabada conversa anterior. Nada, contudo, que fizesse esquecer os momentos de sexo intenso que acabavam de ter.
João, incisivo, tenta fazer com que Ana aceite a proposta de no próximo sábado irem a um fim de semana ao Lago, mas ela, inabalável, diz que precisam de poupar dinheiro para comprar as coisas do dia a dia.
— Não podemos, João! Não precisamos disso para reforçar a nossa relação e o dinheiro faz-nos falta. Não te esqueças que posso engravidar e depois não há dinheiro que chegue.
— Sei disso — disse João, interrompendo afetuosamente — mas também não era tanto dinheiro assim e bem podíamos poupar noutras coisas.
— Não — disse Ana peremptória — nem pensar nisso. Ficamos em casa porque temos muitas coisas para arrumar e precisamos de ir ver os teus pais. Não te esqueças que o teu pai não tem andado nada bem.
— Pois é, tens razão.
A conversa continua versando os mais diversos temas. Sem darem por isso, um homem impecavelmente vestido, alto e com o cabelo preto lambido de gel, dirige-se ao chefe de sala do restaurante e este aponta para a mesa do João e da Ana. O homem, então, caminha até lá e, ao chegar, pergunta:
— Boa noite, preciso entregar uma carta ao Sr. João Salgado, é o senhor?
João, por brincadeira e por recear alguma chatice inoportuna, aponta para o chefe de sala:
— É ele, aquele senhor é que é o Sr. João Salgado! — e riu-se para ele.
O portador da carta não dá sequer tempo para esboçar um sorriso. Levanta o envelope, enorme e grosso, que na verdade escondia a mão do sujeito que agarrava um revólver e, sem pestanejar, descarrega a arma no peito do João. Ana esconde-se debaixo da mesa e o homem sai correndo depois do quarto ou quinto disparo.
Os empregados do restaurante correm para todos os lados. Ana rasteja e mal se consegue levantar. João escorrega lentamente pela cadeira, caindo morto no chão. O peito, um mar de sangue. Um dos empregados corre até ao João, que jaz no chão, para constatar a morte.
Ana desesperada, foge.
A continuar...
António Guimarães