Entrevista ao POSTAL DO ALGARVE
Fotografia e Paixão
1 - Quando é que despertou em si a paixão pela fotografia? Explique.
Em 68, após a rejeição de uns poemas, o Diário de Lisboa pediu-me os direitos para publicar as fotos que acompanhavam os poemas. Daí até à primeira exposição, sempre com uma mãozinha dos amigos, foi um ápice — e o bicho roeu fundo.
2 - O que é que lhe dá mais prazer fotografar? Porquê?
Não tenho um estilo muito próprio e recuso-me a fazer fotografia pelas regras da técnica ou da estética. Sou adepto do instantâneo, da fotografia que não se espera: trejeitos do rosto, gargalhadas, imperfeições. Aquilo que os “outros” rejeitam, eu abraço.
3 - A fotografia é a sua actividade principal ou tem outra complementar? Qual?
A fotografia nem sequer é o meu hobby. É o meu escape, a minha fábrica de sonhos. O meu trabalho nada tem a ver com fotografia.
4 - A objectiva costuma acompanhá-lo no seu dia-a-dia?
Não vou a lugar algum sem levar uma máquina. Até no hospital ela foi comigo. Muitas vezes regresso sem resultados, mas nunca desisto da “muleta”.
5 - Porque intitulou a sua presente exposição de "Silhuetas"?
São trabalhos a preto e branco, de contrastes elevados e tendencialmente escuros. A escuridão obriga a olhar com mais atenção. Uns dirão “adoro”, outros “detesto”. As silhuetas prenunciam indecisão e vontade — daí o nome.
6 - A fotografia é uma arte que atrai muitos visitantes?
Essa discussão dura há décadas. Não me sinto à altura de considerações profundas, porque seria polémico e radical.
7 - Quando fotografa pessoas sente-se à vontade?
Nunca tenho receio de decepcionar. Adoro a crítica, positiva ou negativa. Se não gostam, é porque não consegui dizer o que queria — e aí decido alterar.
8 - Costuma colaborar com livros e revistas?
No passado enviei fotografias para revistas. Hoje mantenho-me no silêncio e na net. Há conversas informais sobre novos projetos, mas nada concreto.
9 - Onde já expôs os seus trabalhos?
Recentemente em Alvor e Quarteira. No passado em Évora, Lisboa, Porto e até em cinemas e teatros. Não é fácil expor: decisões, finanças, aceitação das entidades — tudo é difícil.
10 - O que mais o fascina na fotografia?
A liberdade de expressão. Antes do 25 de Abril, era com a fotografia que gritávamos o que nos ia na alma.
11 - Existe alguma fotografia especial?
Em 1969 deixei cair a máquina e disparei sem querer. Fotografei um “carocha” na estrada com um campo de visão espectacular. Foi publicada pela revista PHOTO e elogiada por profissionais. Nunca revelei como foi obtida.
12 - Uma boa imagem vale mais do que mil palavras?
Não. As palavras completam a foto e vice-versa. Devem viver juntas.
13 - O fotógrafo é um artista?
Sem dúvida. Qualquer artista é um fazedor de sonhos. E haverá alguém mais completo nesse papel do que um fotógrafo?
14 - Que conselho daria a quem pretenda iniciar-se?
Cliquem, indiscriminadamente, cliquem.
António Guimarães