O tempo, a memória e a falta de vergonha
Janeiro 2026
Houve um tempo em que o ano 2000 era apenas uma ideia distante, quase lendária. Dizia-se que o mundo acabaria, que os computadores enlouqueceriam e que a humanidade pagaria o preço da sua própria arrogância. Outros, mais prudentes, limitavam-se a prever que algo correria mal. Muitos de nós ouvimos tudo isso com desdém juvenil, certos de que o futuro se limitaria a repetir o presente.
O futuro, porém, respondeu-nos cedo demais. O ano de 2001 entrou pela História adentro com estrondo. O 11 de Setembro não foi apenas um ataque; foi um abalo moral, um ponto de viragem que redefiniu a política, a segurança e o medo. O que se seguiu no Afeganistão, e depois noutros cantos do mundo — da Austrália em chamas ao Brasil submerso, da Argentina à beira do colapso à violência crua da África do Sul — confirmou que o novo século não vinha mais leve. Era dramático, era confrangedor, e era real.
Passaram-se vinte e cinco anos. A era dois mil continua o seu caminho, indiferente à nossa presença efémera. Nenhum de nós estará cá em 2999, mas alguns anos ficam gravados não pelo que prometem, mas pelo que revelam. Em Portugal, 2025 arrisca-se a ser um desses anos.
Não por catástrofes naturais nem por guerras declaradas, mas por algo mais silencioso e corrosivo: a normalização do que antes causava vergonha. Assistimos ao florescimento de consciências mal amanhadas e à desconcertante facilidade com que a política — em particular à esquerda — se afasta daqueles que diz representar, sem sequer disfarçar.
O Partido Socialista, tantas vezes acusado de transformar o compadrio numa prática institucional, parece já não se dar ao trabalho de negar. Fá-lo às claras, como se a transparência do gesto fosse, por si só, uma absolvição moral. Alexandra Leitão, eleita vereadora em Lisboa, decide nomear como assessora — com um salário generoso — a esposa do seu mentor político, antigo líder do partido. Um cargo cuja utilidade prática se dilui na sombra da conveniência pessoal.
O que outrora provocaria escândalo hoje suscita encolher de ombros. Talvez seja esse o sinal mais preocupante do nosso tempo: não a existência do compadrio, mas a sua aceitação tácita. É preciso uma ausência quase total de pudor para agir assim, ignorando acusações recorrentes de favorecimento e corrupção, como se o poder fosse um espaço imune à ética.
O mundo não acabou em 2000, como se dizia. Mas, algures pelo caminho, algo se perdeu. Talvez tenha sido a capacidade de nos indignarmos. Talvez tenha sido a vergonha. E essa, ao contrário das profecias apocalípticas, faz mesmo falta.
António Guimarães