Artigos em jornais

O voto

Novembro 2011

É óbvio que, ao votarmos, estamos conscientes de que a cruzinha está no lugar certo. Mas também não deixa de ser óbvio que, ao personalizar demasiado o voto, este devia incutir no eleito a obrigação do desempenho das funções com competência, apego e respeito pelas mais elementares regras da democracia.

Neste pressuposto, e na certeza de que não votámos para assistir ao interminável rol de mentiras a que nos forçam hoje, o sentimento de revolta impera. Mas comecemos pelo poder. Numa breve análise à conjuntura política local, sem dificuldade chegamos à conclusão de que as contingências políticas não foram favoráveis a uma boa prestação. As condições financeiras ataram as mãos ao poder, as económicas pregaram-lhe uma rasteira.

Desde Cavaco Silva como Primeiro-Ministro assistimos a uma revoltante mediocridade. O mandato de Passos Coelho não deve, nem pode, ser analisado estritamente nos aspetos da performance de gestão, nem de mudança para melhor (tal como prometeu), mas sim numa perspetiva de comparação de todas as componentes que fazem de um mandato bom ou mau. E também, porque não dizer, na continuidade, já que a mudança era, de todo, impossível.

Neste pressuposto, Passos Coelho não tem sido nem mau, nem bom, porque pura e simplesmente as regras do “jogo” não são iguais às dos mandatos anteriores. E ele, no que diz respeito aos feitos que tratam da “imagem”, não tem tido os meios que os anteriores tiveram à disposição.

Resumindo, acredito que o desempenho de Passos Coelho seria, no mínimo, igual ao dos antecessores se os condicionalismos e os meios fossem os mesmos. Esqueço-me, é claro, da enorme expectativa criada à roda de uma mudança que, para quem estava atento, se sabia impossível. Portanto, numa análise fria e impessoal, chego à conclusão de que, até hoje, tem sido tão bom ou tão mau como os anteriores.

A constatação de que a ditadura se marca pela diferença quase nostálgica não pode fazer ninguém corar de vergonha, já que vergonha é ser mau e continuar a ser mau e não aceitar que se é incapaz. Este governo tinha tudo para se demarcar, mas de facto é constituído por pessoal menor.

António Guimarães