Artigos em jornais

O coxo e o mentiroso

Junho 2011

A confiança depositada noutra pessoa, quando se pensa que a conhecemos, nem sempre é boa atitude. Há tempos confiei numa pessoa e disse-lhe coisas que, não sendo íntimas, eram fruto da confiança que nela depositava. Usando-se do que lhe disse, foi para a mesa do café comentar a minha inocente confissão. Quem ouviu fez o uso que entendeu, e entendeu ofender-me de forma pública.

Depois, vendo que tinha feito asneira — presumo eu — vem para mim, quando eu já tinha sido ofendido, com uma história macaca e rocambolesca na qual acreditei. Foi, cobardemente, incapaz de assumir o que tinha feito e a forma como tinha usado as minhas palavras. Ainda por cima, distorcendo o sentido do que disse e mentindo descaradamente.

Na total e completa ignorância do que na realidade se tinha passado, desanquei no ofensor de forma retaliativa. Passados uns anos, sento-me à mesa de um café e, na mesa ao lado, vem à baila uma conversa que, de passo a passo, me vai interessando e fazendo reviver o que se tinha passado. Qual não é o meu espanto quando oiço a versão do acontecido, contada por alguém que conhecia a história e da forma como realmente se passou.

Hoje já não tem importância e depois até me ri com a cena. Serve isto para dizer que os cães ladram e a caravana passa, e que há coxos que disfarçam melhor que os mentirosos.

António Guimarães