Artigos em jornais

Entrevista de Luís Figo

Dezembro 2011

Li parte da entrevista do Figo, esta última em que diz que quer vender tudo o que tem em Portugal. Comecemos por dizer que sempre me foi uma pessoa indiferente, raiando até o incómodo. Encontrei-o uma vez num jantar e achei-o detestável. Uma prosa estudada, uma postura de superioridade com o fundamento de figura pública abjeta que, aliás, não se cansa de chamar à cena. Mas, principalmente, incomoda-me a forma como olha para as pessoas na sua generalidade. Talvez por ser estúpido.

Gerir bem o espólio que o futebol lhe deixou não lhe confere o estatuto de inteligente. Qualquer um com um mínimo de inteligência pensaria que dar chutos na bola e ganhar com isso não dura mais que uns anitos e há que precaver o futuro. Se isto é ser inteligente, eu diria que não. É ser normal, é o que a grande maioria dos futebolistas de sucesso fazem. Só pode ser se comparativamente se analisar com os que esbanjam o que ganham na expectativa de que os proveitos nunca mais acabam, e invariavelmente acabam na miséria. Mas esses são poucos e parvos.

Não! O Figo não é parvo e ainda bem para ele. O que ele é, é execrável do ponto de vista social, um inadaptado bafejado pela sorte e pela fortuna, um mal informado que não sabe que o IVA não é mais que a restituição de um dinheiro ao Estado e que foi arrecadado em seu nome. É um esperto, e ainda bem para ele.

Mas se ele, quando apoiou Sócrates na sua condição de auto-denominado inteligente, o fosse realmente, teria analisado a situação e, perante os factos da sua vida e dos seus negócios, teria sacudido o capote e abandonado o projeto. Não o podia fazer porque havia muito dinheiro em jogo. Vir agora com este tipo de prosa revela uma pessoa cujo caráter é duvidoso e pouco merecedor do estatuto que lhe foi conferido pelo público aderente aos espetáculos de futebol.

Mas eu estou de fora, nunca lhe dei esse estatuto e não mexeria uma palha nesse propósito, agora e antes.

António Guimarães