A rua do Tenente
Dezembro 2011
Ainda me faz alguma confusão não haver em Lagos uma rua com o nome de Tenente João de Barros Amado da Cunha. Um seu irmão teve mérito para tal, pessoa que passou a vida em África e só por causa da reforma se lembrou que Lagos existia, nem sequer por cá passou férias. Ao Tenente, outros locais no Algarve lhe fizeram jus e outras honras lhe foram concedidas, algumas em vida, mas foi aqui que ele viveu, criou família e fez os seus devaneios costumeiros dos homens do seu tempo e dos seus costumes. Foi esta cidade que ele amou. Era de Lagos! Nada mais fez que isso: ser de Lagos, amar Lagos, defender Lagos.

Não é novidade a minha animosidade com os membros da comissão de toponímia da cidade de Lagos. Vários factos e feitos me fazem defender a tese de que há injustiças e enormes faltas de conhecimento, quiçá de cultura. Não tenho falado muito do assunto porque falo do meu avô e logo aí se torna difícil, condicionando-me o raciocínio. Ao ter sido consultado por um ilustre professor universitário e historiador, para falar do meu avô e da minha bisavó, talvez por ele me ter perguntado onde era a rua em Lagos, agucei os sentidos de novo. De facto, não tenho a menor vontade de falar de novo do assunto.

Não há rua em Lagos com o seu nome, nem os membros da dita comissão sabem de quem falo. Não há rua em Lagos com o nome da minha bisavó, mas há um beco com o nome de Dona Marta, uma senhora a quem os pobres beijavam a mão, uma pessoa a quem gente humilde adorava. Sei que não me vão ouvir e nem eu próprio me quero ouvir. Eram ambos gente honesta mas rude. O meu avô chegou algumas vezes a casa sem a “camisa” porque tinha ajudado um amigo.
Lagos é má mãe e boa madrasta.
Há ruas em Lagos com nome de gente que nada fez de especial para merecer tal honra. Há ruas em Lagos com nome de gente que fez fortuna à custa do suor de outros. Há ruas em Lagos com nome de gente que ninguém sabe quem é. Mas há uma geração de gente em Lagos que sabe bem quem foi o Tenente João de Barros Amado da Cunha. No Algarve há-o também. Em Lisboa há gente ilustre que quer saber mais acerca dele. Eu tive essa honra, falei com mágoa, mas falei.
A minha bisavó, a tal do beco da D. Marta, era uma senhora de porte fino que chamava os pobres para a soleira da sua porta e lhes dava um tacho de grão com acelgas. A comissão de toponímia de Lagos não considerou isso importante. Eles querem lá saber que os pobres lhe beijavam a mão de lágrimas nos olhos. Mas a D. Marta, que tinha mais uns quantos nomes esquecidos pelos tais senhores, não gostava do Tenente. Era a sua sogra, a mesma a quem ele tinha usurpado a filha — a única usurpação que lhe conheço.
António Guimarães