Ufffffffffffff!!!!!!!!
27 de Outubro de 2009

A viagem foi enfastiante e demorada. A hospedeira era demasiado antipática no seu profissionalismo exacerbado. O vinho na refeição era uma merda, a comida empastelante e grosseira e, mesmo colocando a hipótese de eu pagar uma garrafita daqueles que iam para além do reposteiro azul, nada feito. Ela simpaticamente disse-me que “ali é a primeira classe, só para certas pessoas”.
Quase que me excedi na linguagem, mas contive-me. Nem lhe respondi, olhei-a bem nos olhos e tenho a certeza que percebeu que na minha alma ia um requintadíssimo “vai à merda”.
A turbulência da aterragem veio animar as hostes e os braços dos bancos quase se desintegravam debaixo da força estonteante que todos fazíamos. Foi realmente uma maçada aquela aterragem, quase ouvi o “ufff” do piloto quando o rodado escorregou pelo alcatrão da pista. No aeroporto, os olhos esganiçados dos passageiros sintomatizavam o que se tinha passado lá em cima. Não fossem os cintos apertados e todos teríamos voado pela cabine. Mas as atribulações para mim ainda não tinham acabado.
Havia uma denúncia de que um homem de baixa estatura, loiro, vestido com uma camisa azul e umas calças de ganga estaria demasiado nervoso, o que denunciava que estaria transportando algo ilícito. Despiram-me de alto a baixo e vasculharam a roupa. Não sabia que nos aeroportos havia máquinas de radiografia. Depois de terem verificado que eu estava limpo, veio uma senhora muito simpática, falando alemão fluente numa algarviada indescritível que eu não entendi, apontando para a roupa e fazendo gestos que interpretei como sendo para me vestir e sair.
Nem sequer se deu ao trabalho de saber se eu percebia alemão. Estávamos na Alemanha e, para ela, só mesmo a língua alemã interessava. Desforrei-me falando com ela em português, insultando-a de tudo e mais alguma coisa, mas fazendo vénias com a cabeça e sempre com um sorriso nos lábios, prontamente correspondido. Mal sabia ela que, se o marido entendesse português, me desancaria.
Puseram-me fora do aeroporto após quatro horas. Os serviços públicos em todo o mundo são idênticos: nem sequer se dão ao trabalho de pensar que eles também são gente e que um dia podem estar deste lado.
António Guimarães