As pernas que eu desperdicei
23 de Abril de 2009

Era de manhã cedo, desci as escadas esfregando os olhos e chateado por ter abandonado a cama e aquelas pernas lisas que roçavam nas minhas de uma forma sensual. Abri a porta da arrecadação e tirei a bicicleta. Olhei para o relógio e ainda o ponteiro maior não tinha batido as sete da manhã.
Não me conseguia esquecer que aquelas pernas tinham lá ficado em movimentos de busca. Dei um salto e pedalei freneticamente até ao centro da cidade, passei a praça da Câmara e atingi a avenida. O cheiro da maresia tomou conta de mim quase esfregando-se, mas o movimento das pernas ocupava os meus sentidos, até o meu olhar.
O cheiro parecia mais forte, lembrando peixe fresco, ao ponto de me obrigar a pedalar fortemente. Cheguei à marina pelo lado da ponte e olhei para trás na expectativa de que as pernas definitivamente acalmassem. Mas não! Elas mantinham-se ali, firmes e sensuais.
Cheguei ao fim da estrada e, na rotunda, vi os Palmares. Pedalei, pedalei e as pernas não me abandonavam. Parei junto à passagem de nível. O grito cá dentro era desesperante. Que raio estava eu a fazer ali, suado que nem um porco, com os “bofes” de fora, enraivecido e todo curvado cheio de dores no abdómen?
Em casa tinha umas pernas lisas que, em movimentos lentos e estudados, me fariam sentir vivo de novo. Ali tinha apenas o som da minha respiração ofegante e estúpida.
António Guimarães