Artigos em jornais

Xaxada!

1 de Maio de 2007

Quando há uns dias fui ao hotel EVA e subi ao quinto andar para assistir a um seminário, pensava que ia assistir a mais uma daquelas xaxadas e enfadonhas sessões que nos dão um pequeno apoio curricular. Entrei na sala e mais convencido fiquei quando vi os figurões de fato cinzentão, sem alegria nas gravatas e com camisas a contrastar. Nada mais podia fazer que deslocar-me para uma das cadeiras dos fundos e bater uma sorna o mais disfarçadamente possível, ficando expectante que do meu ser não saísse algum ronco que assustasse as meninas duas filas à minha frente.

O primeiro orador soltou-me a maior dose de sono de que tenho memória. Olhei para o programa e assustei-me: tinha que gramar com este fulano a morrer de sono durante 30 minutos, trinta intermináveis minutos. Dormi. Acordava a espaços e dei pela troca de orador. Uma senhora meio envergonhada e cheia de um stress incompreensível. O café veio em minha salvação, é que mais um orador e estatelava-me no chão. No canto da boca escorria-me a incontrolável saliva, aquela que a gente limpa com as costas da mão. Estava completamente babado mas o sono era impossível de obliterar. Um café salvador veio. Bebi e conversei cheirando aqueles horríveis cigarros fumados até queimar os lábios.

Em dez minutos estava de novo sentado naquele fundo horrível e defronte para os figurões. Puxei um pouco a cortina, já que desta vez tive o cuidado de me sentar junto da janela. Tinha visto aquela tábua de salvação. Junto da janela, se caísse, sempre me podia esconder por detrás das cortinas azuis e já sujas, nojentas junto ao chão.

Falaram mais duas pessoas sem a menor experiência destas andanças e que, na tentativa de fazer as coisas mais ou menos bem, vão-se engasgando e estragando a “fudorica” toda. Uma verdadeira chatice. Um enfado de todo o tamanho.

Na mesa da presidência, para além dos figurões, estava um senhor de cabelos brancos, totalmente brancos, camisa imaculadamente branca, gravata jovial e alegre de cor clara sem contrastar com nada e por cima disto um casaco de tons quentes acastanhados, mais a cair para o mel. Isto tudo em calças cinzentas, normalíssimas, portanto uma pessoa como tantas outras. Não fosse a forma aberta e contagiante como se ria para a plateia, passaria despercebido. Nem mesmo o ar de índio do Peru chegaria para o fazer parecer diferente. Era mesmo um professor universitário oriundo do Peru. Era mesmo, também, o sorriso que marcava a diferença.

Olhei para o resto da plateia e 75% dela dormia, bocejava, conversava ou não prestava a menor atenção ao que os oradores iam dizendo. Era meio-dia e já todos olhavam para o relógio. Nisto o Presidente da mesa anuncia o tal senhor, de facto um índio na Universidade do Algarve, um ex-membro do governo peruano. A forma aberta e interativa como interpelou a plateia, como se nos conhecesse há montes de tempo, denotou de imediato que era um orador de qualidades excecionais. Um perfeito comunicador.

Abordou de forma aberta, sem microfone e com um timbre de voz alto, cheio e a pleno pulmões, o tema da inserção dos trabalhadores nas empresas. Em mais de uma hora de conversa conseguiu cativar a atenção de todos e fazer esquecer o almoço que estava pronto desde as 12:30. Saímos da sala às 14:00 convencidos de que quem quer, pode, e que o que é necessário, mesmo, é ter força de vontade.

Falávamos de emprego versus trabalho e das mudanças que se vão operando no setor empresarial da região e a nível nacional. Os empregados têm que se apresentar nas empresas como uma solução e não o contrário. Acredito!

António Guimarães