Artigos em jornais

O sabor da idade

Abril de 2007

Há uns dias fui almoçar ao centro comercial de Portimão, ao Continente. Subi pelas escadas rolantes e à minha frente iam duas senhoras conversando alegremente, não se coibindo de falar alto demais sobre temas mais ou menos indiscretos. Íntimos, diria mesmo. Pararam numa loja de roupa para homem e deixei de as ouvir.

Dirigi-me para a zona do Centro onde estão a grande maioria, senão a totalidade, dos restaurantes. Aquelas comidas irritam-me porque são “insensaboronas” e geralmente insonsas também. Com o tabuleiro na mão sentei-me junto a uns jovens que estavam a terminar.

Nisto oiço umas gargalhadas e deparo-me com as duas “cinquentonas” que já eram três, a rir de modo meio forçado e a denotar uma tentativa algo conseguida de chamar a atenção sobre si próprias. Na sua quase totalidade, os presentes — umas largas dezenas de pessoas — miravam as mulheres com ar de espanto, desaprovação, gozo, troça e sei lá que mais. Entretanto pararam e foram escolher o que comer.

Os jovens a meu lado comentaram baixinho, porque me devem ter visto os cabelos brancos, e de certeza que comentavam o facto da entrada na idade fazer destas coisas. Mas eu estava calmo e, como sempre à hora do almoço, brincando com o meu PDA. Para mal dos meus pecados, os jovens foram-se embora e uma das cinquentonas, de um salto, ocupou a mesa que era de quatro lugares.

Um horror: o cheirete a perfume incomodava qualquer um. Ao olhar para aquela face mal tratada e cheia daqueles cremes que transformam as mulheres em bonecas de loja de chinês, fiquei horrorizado e com dó do homem que teria que dormir todas as noites com aquilo.

Nisto aparecem as outras duas e, sem me conhecerem de lado algum, pedem-me licença para se sentar. Eu retorqui acedendo ao intento feminino de partilhar comigo o meu sossego. A conversa era de tal forma indecorosa que é indescritível, até mesmo os termos que utilizavam.

A que me pareceu mais velha chegou mesmo a dizer, desta feita baixinho mas eu ouvi: “ele fode como um porco”. Olhou para mim e, num tom meio apaziguador, meio à laia de justificação, pediu-me desculpa e riu muito. As outras duas seguiram-lhe o rasto e riram também. Eu, claro, também — que poderia eu fazer?

Mas reataram a conversa e nisto a que estava à minha frente disse-me com um ar muito sério: “estamos a incomodar?”. Eu disse que não, mas levantei-me.

António Guimarães