O Pisa Papeis
Abril de 2007
Há pouco mais de um ano, ia eu por uma das ruas de Portimão congeminando como haveria de convencer um cliente a comprar o que eu lhe queria vender, quando tropeço numa pedra da calçada que, com a chuva, presumo eu, saltou do lugar e ficou ligeiramente saliente. A sola do sapato foi à vida, descosida, e as dores no dedo do pé eram enormes. Roguei pragas ao cabrão do calceteiro e até chamei filho da mãe ao presidente da câmara e seus capangas.
Nisto fez-se luz no meu espírito e lembrei-me que as razões do meu tropeço eram mais que evidentes. A resposta estava ali. Eu tinha que convencer o meu cliente que a única forma de vencer no mundo dos negócios é estar atento ao caminho que traçamos. Eu tinha a solução nas mãos. Convencê-lo disso não seria de todo complicado. Nunca permitir atropelos ou sequer que qualquer coisa se atravesse no caminho era a forma ideal. Dizer-lhe que a informação atempada é a chave fundamental para o caminho do sucesso. Obviamente! Claro! Eu tinha a solução.
Aquela pedra saliente que me enfureceu e à qual joguei meu ódio como vingança contra o Presidente da Câmara está hoje aqui ao meu lado, toda envernizadinha e pomposa, a dizer-me que a chave do negócio é a atenção e que tenho primeiro que tudo de vender essa ideia. Só depois é que abro a “mala” e mostro a “livraria”.
Desta feita, neste maravilhoso pressuposto de convencimento analítico, correu tudo dentro dos conformes estabelecidos pelas regras do bom vendedor de ideias. Vendi! Naquele dia, se não me tivesse agachado, lívido de dores, e não tivesse pegado na pedra branca, cúbica, com um dos lados polido ao extremo e uma vontade de partir a montra que se avizinhava mais próxima, não teria hoje este pisa-papéis. Fruto da minha desistência, não pisa nada mas serve de decoração numa secretária onde abundam CD’s, disquetes, pen’s e outros meios de suporte documental neste mundo moderno, onde o papel mais não é que alimento a uma máquina horrível e barulhenta para o destruir.
António Guimarães