Artigos em jornais

Legado de emoções

Agosto de 2007

Há uns tempos decidi que era tempo de vasculhar no baú da herança, o meu “legado familiar”. Um monte de coisas inesquecíveis que dificilmente se despegarão de mim.

Uma amiga, a Sofia, numa destas noites em que fomos beber um Porto à Enoteca, disse-me que sempre tinha tido a impressão que eu era rico e herdeiro de fortuna. Ri-me e retorqui que estava tão enganada agora como o estava há décadas atrás quando namoriscávamos. Não acreditou e recusou-se a ver-me de outra forma que não fosse como um rico herdeiro passível de fisgar. Brejeirice minha, claro. A ideia errada que fazemos das pessoas com quem convivemos é de facto interessante sob muitos pontos de vista, um deles é o da vivência no quotidiano. É como construir castelos no ar.

O meu baú, despojado de ouros e ornamentos, tem no entanto um valor incalculável. Nas “rusgas” que fiz encontrei uma famosa camisa de dormir — famosa em minha casa, é bom de ver — que o meu avô utilizava e que eu herdei por ter achado piada à forma como ela se nos apresenta. A camisa, que seria na altura imaculadamente branca e agora não o é pelo amarelo do tempo e traços de ferrugem, tem ali pela altura do pénis um buraco com uma espécie de assertoado mas sem botões. Disseram-me que era para deixar sair o pénis no ato de urinar. Nunca acreditei naquela justificação, aquilo não me convencia porque eu sabia que o meu avô, para urinar, não precisaria daquilo: bastava levantar a “saia”.

Assim, numa deslocação a Lisboa, fui ao Museu do Traje ter com uma amiga, a Conceição, e levei a camisa num saco de plástico do Modelo. Levei logo um arraso. Segundo ela, a roupa antiga que queremos conservar em bom estado não se deve transportar em sacos de plástico, mas sim embrulhada em papel celofane ou vegetal fino. Não me perguntem porquê, que eu não sei.

Mostrei-lhe a camisa e ela desatou a rir. Fomos a uma sala nos recônditos do Museu e ela mostrou-me outra, repleta de bordados e de uma tonalidade creme que se via não ser fruto do tempo, pertencente a uma aristocrata que a tinha doado ao Museu. Mas o buraco lá estava, perfeito e à mesma altura. Mas para sair um pénis da camisa que tinha pertencido a uma senhora era complicado, portanto só para entrar. Digo eu, sei lá! Uma senhora urinar assim e por ali era quase impossível. Um dilema.

Como ninguém conseguia explicar as razões da existência daquele orifício, a Conceição ficou de consultar alguns documentos do seu espólio informativo e depois me dizer alguma coisa mais tarde. A gente guarda cá com cada coisa!

Há dias recebo um telefonema da Conceição e um convite para um almoço na Marina de Portimão. Já nem me lembrava que tinha deixado lá a dita camisa. Estava à minha espera, linda e apetitosa como sempre (eu sei que vais ler isto, mas que queres, saiu-me e agora já não há retrocesso), na companhia de uma mulher de idade, de ar fino, nariz aquilino, lábios pintados de um rosa forte e sensual, mãos esguias de unhas tratadas e pintadas, muito pintada, mas bonita, muito bonita mesmo. Pareceu-me conhecida, mas não consegui dizer efetivamente quem era. Eu conhecia aquela cara de algum lado.

A Conceição foi efusiva e muito carinhosa, como o é sempre entre nós, e a apresentação também, mas deixou-me completamente de rastos porque eu não estava à espera de ir almoçar com uma figura pública do jet set nacional e muito menos com uma “Condessa” (aristocrata?). É que eu, apesar de convicto monárquico, ainda sou dado às questões dos resquícios que a monarquia me deixou. Era a dona da outra camisa.

A Conceição encetou logo as apresentações institucionais e depois as particulares, levando-nos ao relato quase exaustivo das suas pesquisas. As camisas de dormir com um buraco em zona indiscreta estavam para nós na ordem do dia. O relato das pesquisas não nos interessava minimamente, ambos denotávamos uma ignorância total e já tínhamos decidido que os buracos eram de índole sexual.

Entretanto desenvolvemos essa teoria perante o silêncio incrédulo da Conceição. Eu penso que ela nem queria acreditar no que estava ouvindo e muito menos na linguagem libertina que decidimos utilizar. Para nós aquilo não passava de um inestético buraco que mais não seria que um apetrecho sexual usado por quem tinha pudor do cônjuge. Nas nossas mentes perversas sempre desconfiámos haver ali uma tramóia sexual à mistura, mas estávamos no caminho certo porque, no fim do relato, a Conceição, a medo, disse que sim, também haviam outros tipos de estudos que indicavam ser aquilo um apetrecho sexual de meados do século XIX.

A função do ato restrito ao pénis e à vagina, sem interferência de corpos malcheirosos e suados. Os nossos antepassados, os meus e os da minha novel amiga, não se queriam despir das roupas de dormir mas queriam ter todos os favores do parceiro e assim decidiram aproveitar a deixa da braguilha e transferiram-na para a cama.

António Guimarães