Há 35 anos
Abril de 2007
Entrei pelo casino adentro e jurava que ia sair de lá rico. Se me dissessem para voltar para trás e poupar os míseros escudos que levava comigo, eu matava o gajo. Sentei-me num daqueles bancos altos, duros como a merda que os fez, e desatei a meter moedas de 50 “melreis” naquele buraco estúpido e comedor insaciável.
Menos de hora e meia depois estava teso que nem um carapau e sem chavo sequer para comer no dia seguinte. Era um dia de Abril de 1972 e o Casino era o da Póvoa de Varzim. Eu vivia numa pensão miserável e partilhava o quarto com um conjunto de baratas de todos os tamanhos, uns dois ratos e umas osgas.
As máquinas do casino eram daquelas de puxar a alavanca e o jogo era um póquer desaforado e desafortunado para mim. Horrível. O meu pai dava-me, a muito custo, mil escudos por mês e eu tinha que pagar o quarto e comer. Fazia muita falcatrua e trabalhava numa pensão a servir às mesas. Namorava com a filha de um médico famoso na cidade e escondia-me, virando as costas para a entrada, quando alguém conhecido trespassava aquelas portas ruidosas, grandes e grossas da taberna que dava alento à pensão. Eu fazia-me passar por rico.
Nesse dia jurei a mim próprio que seria rico e que não mais passaria fome nem contaria os tostões para comer. Ainda estou à espera, mas a paciência é a minha maior virtude.
Voltando ao póquer daquela terrível máquina, lembro-me que, a páginas tantas, a máquina começou a desbobinar moedas, daquelas grandes, de cinquenta melreis. Olhei para as mãos, para o buraco da máquina e só aí reparei que o cagaçal vinha da máquina que tinha acabado de deixar. Ao meu lado. Aquela “puta” ali mesmo ao lado fez um pleno para o cabrão que me foi ocupar o lugar.
Já lá vão 35 anos e o dia do pleno ainda não chegou.
António Guimarães