Artigos em jornais

Em Abril sem cravo, pois claro!!!

Abril de 2007

Estava em casa olhando para a televisão e nisto reparei que já eram horas. Ia começar a cena no CC daí a dez minutos. Peguei na púcara de café e levei para a cozinha com a maior das calmas. Saí de casa e, também nas calmas, desci a rua até aos bombeiros antigos e fui beber um café. Só depois me lembrei que podia ter bebido no bar do CC.

Não estava convencido de que ia entrar e ver aquele desconsolo e aquela trupe que se move em redor do poder político, sempre na expectativa de arranjar um tacho, uma festinha no lombo, um elogio, a possibilidade de lançar uma intriga e coisas assim. Às vezes bué inocentes. Uns arranjam um tacho para eles, outros para os filhos, outros ainda para a vizinha que às vezes até dá umas quecas à socapa do marido. Há também aqueles que sonham eternamente que são influentes e se penduram nos grupinhos, sem darem conta da risota indiscreta que provocam. Há também aqueles cujas quecas virtuais se tornam irreais. Os prazenteiros. Os eternos parvalhões. Enfim, tristezas.

Não tinha certeza de estar disposto a aturar aquilo e fui na mesma até à porta do salão. Já estava tudo na sala, todos de ar pomposo e prazenteiro, de cravo vermelho na lapela. Elas com o pé do cravo a roçar o rego das mamas. O cravo é um depravado. O cravo não murcha, não murcha por ser crédulo e por acreditar que aquela gente sente que aquilo é sincero. Eu já não. Não acredito em nenhum deles e cada vez acredito menos.

O 25 de Abril também ele foi um clamoroso engano de um punhado de gente que se viu na possibilidade de fazer um golpe de Estado quando já as reuniões do QG de Évora eram um facto consumado. Eu falo do que sei e disso não sei nada, só os via entrar nos dias em que estava de serviço. Os homens dos dourados.

Saí dali e fui dar uma volta até Carvoeiro e depois lembrei-me que tinha lá tirado esta fotografia (que desapareceu por obra e graça do espírito santo).

António Guimarães