A “Bonita Época”
Março de 2007
Tradução rigorosa e livre que nos leva só por si a sonhar.
Os anos entre 1890-1914 que precederam a Primeira Guerra Mundial hoje são conhecidos como “La Belle Époque”. Durante este período, o prazer reinava e a “alegria de viver” caracterizava a vida diária, mas tantas vezes encapotando autênticas desgraças e modos de vida fictícios.
Sendo um conceito tradicionalmente oriundo de França, nem todos os franceses reconhecem ou apelidam efetivamente este mesmo período como a “Bonita Época”, talvez porque a memória recente o relaciona com acontecimentos tristes da história francesa. Retrospectivamente, os horrores das duas guerras mundiais e da depressão tornam este período antes da guerra menos bonito, mas ao mesmo tempo um dos mais maravilhosos no espírito e na imaginação.
A “La Belle Époque”, ou “Bonita Época”, como queiram, será na verdade um mito que retém a sua importância e reforça a imagem dos franceses que gostam de viver fora dos sonhos. O período era caracterizado por uma inclinação para o prazer, por um desprendimento da realidade e por um profundo desprazer “da contrariedade”.
Analogamente, hoje vive-se uma época muito semelhante no seio da juventude dos nossos dias, com um grupo desses jovens preferindo o prazer a qualquer custo, não encarando o futuro como tema prioritário da sua existência.
Voltando ao passado, é interessante referir que durante estes anos muitos novos lugares de distrações e de meios para a continuação do prazer e do lazer apareciam sobretudo em Paris. Um destes lugares era Montmartre, conhecido como bastião de prazer, onde encontramos os cafés-concerto mais famosos como as Folies Bergère, os cabarets e os music halls.
Numa abordagem sumária verificamos que a analogia indiscutível entre as épocas esbarra nas referências físicas e no fausto. Os métodos são outros, os conceitos idem, as atitudes também. A droga, essa é a mesma, mas também não é nessa área de interesses e de movimentações da juventude que encontramos os dependentes. Aqui, nas raves, encontramos dependentes de prazer e uma procura constante do esquecimento perante a impotência que os jovens sentem em fazer mudar as atitudes.
No fundo, é tudo uma questão política e esta é a verdade que amedronta os políticos de hoje: o receio de serem englobados numa ideia de evolução que eles próprios não entendem. Já houve quem chamasse a esta geração a “geração rasca”. Inerente a este catalogar de gente está a gente que o faz. Eu não penso assim. Penso que a geração que intermediou estas duas pecou pela falta de inteligência e pela incapacidade de se adaptar. O resultado foi uma geração medíocre.
No entanto, hoje surge uma camada de gente que sabe o que quer, mas fundamentalmente sabe o que não quer. E de todo não quer o que nós queremos. Só que nós ainda não sabemos respeitar essa vontade e receamos também que nos acordem do sonho.
António Guimarães