Às voltas com os blogues
2007
Uma flor para quem sabe estar...
Ao entrar para o mundo dos blogs, a primeira impressão é de uma total inutilidade. Para que raio servirá escrever num computador para depois ficar sem saber quem lê e se lê? Os conteúdos só são entendíveis para quem está intrinsecamente envolvido no meio e, sem esse envolvimento, ficam desprovidos de interesse.
Depois vem a dependência e a necessidade de produzir um sem-fim daquilo a que pomposamente chamamos de artigos. O auto-convencimento de que meio mundo nos vai ler, os cuidados com o spelling, com as frases, o interesse que manifestamente nós consideramos absolutamente irresistível está presente em cada decisão. Nesta fase nem nos apercebemos da real inutilidade dos textos que se produzem e muito menos da quantidade de asneiredo escrito.
A fase do “esgar” de riso no canto do lábio é de facto a melhor. É quando produzimos textos que nos dão gozo escrever, quando os relemos e eles têm sentido, quando nos estamos pouco importando com o spelling, com os termos, com o sentido das coisas que dizemos. É a fase em que queremos dizer alguma coisa, em que o gozo infinito de produzir textos aos quais juntamos uma imagem que tantas vezes só tem mesmo sentido para nós, é aquela que nunca mais acaba, a que nos quer realmente dizer alguma coisa.
Nós, os blogueiros — os da treta e não só — produzimos um espaço de verdadeira literatura, de verdadeira e boa literatura contemporânea. Digam o que disserem. Um texto aqui, um artigo ali, uma crítica, uma ofensa, um elogio, uma verdade, uma mentira, um sem-número de coisas e situações que se transformaram num ápice no mundo de sensações extraordinárias com as quais aprendemos a viver, que sentimos e, principalmente, que aprendemos a respeitar ideologicamente. Quer o que lemos, quer o parceiro que também escreve.
Os que não respeitam isso estão cá por acaso e nem sabem o quão transitória e inútil é a sua passagem, reveladora da sua confrangedora falta de inteligência.
A blogoesfera tornou-se numa das salas da nossa casa, numa das obrigações, mas é aquela obrigação que não somos obrigados a respeitar. Isso é ímpar. Sobretudo, sabe bem saber que o fazemos porque nos apetece.
António Guimarães