Artigos em jornais

Ainda a fotografia de...

Setembro de 2007

Quando há uns tempos li um texto que, para além de pérfido, seria no mínimo pejorativo, deu-me uma vontade enorme de ripostar. Não o fiz porque assumidamente não era nada comigo e eu meter-me-ia em seara alheia. Era referente a uma foto que nem sequer era minha. Preferi pensar e assentar ideias no que de lastimável aquele pequeno texto repleto de “fel evacuativo” transportava.

Há pessoas que vieram da “merda” (evacuantes) e não conseguem ultrapassar essa pecha, fazendo-se passar por “merdosos” (evacuativos) recentes. Cair na tentação de saborear uma vingança que se serve fria e se come não fria mas gelada, ainda que nada comigo seja, é o que de mais óbvio se me afigura. Não, nada disso. As pessoas sempre tiveram uma tendência para analisar os atos a quente e ripostar à letra. Eu faço-o também, mas depois gosto de deixar vincada a minha posição de uma forma mais sustentada, madura e indisfarçável. Frontal, quase que direi!

Para além de frio, gosto de servir o prato “à francesa” e, assim, para justificar a minha intervenção, humanizo a questão. Há muitos que pensam ser o silêncio uma grande arma determinante e forte, aquela que mais ofende. Concordo, mas eu não ajo assim, já que o silêncio me faz esquecer as coisas que têm importância, assim como o desprezo as pode tornar aceitáveis.

O termo “humanista”, provavelmente, será aquele cuja amplitude de significado ultrapassará até os próprios conceitos que o homem aplica a si próprio, senão vejamos: é um conjunto de homens; é o género humano; é a natureza humana; mas também pode ser a clemência; a benevolência; e o amor do próximo. Aceito que seja um termo vagamente pretensioso. É, na sua definição original, aquele que domina as letras e todo o conjunto de ciências que as estudam. Aos homens o que deles é.

Prosápia dos intelectuais, pois que seja, mas os leigos também são humanistas e tantas vezes expelem “as humanidades” naquilo a que vulgarmente chamamos de cultura geral. Um dos meus professores de português diria que “a cultura geral muitas vezes aparece mascarada de ‘marração’, pouco discernimento e é evidente nalguns escritos ‘fóbicos’ onde se valoriza o plágio ideológico e se dá pouco ênfase ao pensamento. Quem se gaba de a ter, não a tem e é um ignorante nato...” (texto com adaptação minha, ideia dele).

Nada mais certo e aplicacional ao caso. Não é vergonha não saber, não é vergonha ter sabido e ter esquecido, não é vergonha ser intelectualmente limitado. Não quer dizer absolutamente nada, ou antes, quer tão-somente dizer que estamos perante um ente humanizado, portador de um sentido de humanidade pouco comum a quem se vangloria.

Ao correr da pena que preparou este escrito e ao correr do pensamento que o alinhavou, misturou-se um sentimento de dó pelo autor daquele “textito” pequeno e “feloso” que determinou a publicação, não fosse ele próprio se enclausurar num claustro monástico donde dificilmente sairia.

(*) Fernando Correia, que atualmente vive em Portimão e tem cerca de 90 anos. Um abraço para ele. Há uns 20 anos atrás bebemos muitos cafés na Casa Inglesa, bons tempos de santa prosa.

António Guimarães