Porque é necessário esclarecer
Julho 2005
A censura não é um processo de coação da liberdade de expressão exclusivo dos regimes políticos totalitários. Por incrível que pareça, é também um processo utilizado por alguns auto-proclamados arautos da defesa da democracia, ainda que exercendo a sua ação na gestão de uma pequena empresa.
A censura é, também, um recurso utilizado por alguns gestores para tentarem prolongar o estado de graça em que sobrevivem. É normalmente encapotada e sustentada num discurso de aparente grande apreço pela democracia, e é sobejamente utilizada por entidades que pouco entendem dos conceitos democráticos. Em todo o caso, não é somente neste sentido que assistimos a alguns métodos de censura a que recorrem órgãos de informação que reduzem ou eliminam artigos de opinião por não lhes interessar aos seus projetos, especialmente aos de cariz financeiro. É a máquina de qualquer sistema de poder a funcionar em pleno.
Habitualmente, considera-se a liberdade de expressão como uma componente dos regimes democráticos e a censura como componente exclusiva dos regimes totalitários. Quem entra no mercado da distribuição de “opinião” tem que estar preparado para as contrariedades e usar de muita argúcia e inteligência para navegar nessas águas.
O novo-riquismo pseudo-democrata que predomina entre os detentores dos órgãos de informação copia os comportamentos preponderantes da hierarquia corporativista do setor, não conseguindo, contudo, alcançar os parâmetros de qualidade da “informação” que tenta copiar, mas levando algumas entidades a praticar abusos do mecanismo de exclusão na seleção do que é publicável ou não, do que serve ou não os interesses económicos da empresa. Do que conseguem ou não sustentar no aspeto restrito da argumentação defensiva em caso de litígio.
Normalmente quem gere estes interesses está do lado de fora, escondendo-se ou mandando dizer. Muitas vezes defendendo conceitos absolutamente contrários aos que publicita nos estatutos editoriais por que se rege. Às vezes, até por desconhecimento de que eles existem.
Há aspetos até que levam à crítica antecipada em termos éticos, invariavelmente para encobrir problemas de gestão criados por múltiplos desajustamentos comerciais e por os “gestores” não terem formação adequada para gerir um órgão de informação. Este cenário é gerador de permanentes adaptações da estratégia empresarial levando, invariavelmente, à falência técnica ou à subsídio-dependência. Este recurso constitui em muitos casos “o salvador”.
Porque será que os blogs adquiriram tanta importância no nosso país? Porque será que tanto articulista opta por divulgar ideias em blogs? Porque será que nas bancas das livrarias já há livros com extratos dos blogs? Inibo-me de responder. É por demais evidente. Que me importa a mim a quantidade dos que me vêm ler? Que me importa que sejam muitos ou poucos? Por que razão andaria a esconder estatísticas ou a manipulá-las?
Há dois passos obrigatórios quando a censura é feita por processos democráticos: argumentação e conflito.
António Guimarães