Artigos em jornais

A história do nascimento do Canallagos

Julho de 2005

1ª Parte Como nasceu a ideia, como ela evoluiu, como se firmou e como a cedi a outros

Esta história dedico-a ao meu amigo, irmão e não sei que mais, Jorge Salema.

Perdi, talvez, o meu melhor amigo. Já lá vão dois anos que o Jorge saiu das nossas vidas levado pela doença, ao fim de três debilitantes meses. Gostávamos de nos cumprimentar com um beijo no rosto, a que os amigos dedicavam um sorriso entendedor do carinho que nutríamos um pelo outro. As nossas mulheres diziam que “aquilo dá para desconfiar”. Nós, pura e simplesmente, ignorávamos o piropo.

Hoje ainda choro convulsivamente de cada vez que vou ao cemitério olhar a campa daquele estúpido que se foi embora, assim, sem mais tempo para gozarmos a vida. Por mais que volteie pelo cemitério, procurando desculpá-lo, esbarro sempre com a imagem da sua expressão matreira a dizer-me que apesar de morto está a ver-me, esperando com um whisky de 5 anos num copo raso, sem gelo, numa das mãos, e na outra uma imperial para mim.

Perder a presença de um amigo assim é muito duro, mas mais duro é o tempo que a dor permanece. Para sempre. Não há dia em que a figura do Jorge não me apareça à frente. Não há dia em que um dos meus pensamentos não se lhe dirija, deixando-me profundamente melancólico. Desde o dia em que ele se foi que encaro a morte de maneira diferente. Deixei de ter medo.

Falávamos de viagens, dos amigos de outros tempos, da neta, da filha, dos filhos. Chegávamos a telefonar um para o outro insultando-nos mutuamente por o outro ter o telefone ocupado tanto tempo. Simultaneamente, tentávamos ligar um para o outro. Nunca falávamos de política. Não havia tempo para futilidades entre nós. Alguns minutos chegavam para falar de futebol, do Sporting, estava bem, estava mal. “Que se lixe”, dizia ele, e avançava para relatar o dia de trabalho e questionar-me sobre o meu. Só muito tempo depois de sermos amigos é que soube que ele era comunista. Nada se modificou entre nós quando ele soube que eu era “não comunista”. Nem mesmo nesse dia sentimos necessidade de falar de política. Ambos adorávamos o prazer reconfortante de uma boa música enquanto falávamos dos problemas da vida.

Naquele dia, no 4º andar do Hospital, senti que seria a última vez que o veria. E foi. À meia-noite dava o suspiro final. Horas antes, mandou-me para casa com uma palavra de consolo. Ainda tentava iludir uma morte que eu desconfiava estar prestes a levá-lo. “Obrigado pela visita, até amanhã” — disse-me já a caminhar para o quarto e com um sorriso diferente. Também ele sabia que já não nos veríamos mais. E nunca mais ouvi palavra da boca do Jorge.

Mas… porque razão estou a partilhar com outros a dor que me corre por dentro e me faz tantas vezes desejar que isto, da vida, se despache para eu voltar a estar com ele?! Porque decidi escrever a história do nascimento do Canallagos e, de todas as pessoas com quem falei sobre o assunto, o Jorge ter sido o único que me estimulou a avançar em força, seguindo o meu palpite. É, até, bem possível que o Canallagos tenha nascido por ele não me ter dito que o não fizesse.

É essa história toda, do Canallagos, que quero contar. E vou fazê-lo em partes, nem sei quantas… até ao fim.

Começo aqui a escrever a história do “Canallagos”. O site de notícias de Lagos que nasceu em 1997, apesar de só em 1999 ter-se tornado conhecido. E nunca poderia começar esta história de outra forma. Foi graças ao Jorge que dei seguimento à ideia de fazer esse site de notícias.

(Continua, há muita coisa que tem que vir a saca-rolhas, mas não vou abandonar o projeto de vos dizer como aquilo surgiu e porque razão hoje não tenho nada a ver com aquilo.)

Junho de 2006 — ainda não tive paciência. Outubro de 2007 — Acho que já não vale a pena. Na merda quanto mais se mexe mais cheira.

António Guimarães