Articulando com sentido
Junho de 2005
É à noite que tentamos chegar onde ninguém mais pode chegar a não ser nós mesmos. Às profundezas do nosso ser. E que importa que nessa viagem tenhamos medo de desviar por uma viela estreita e escura, confusa e tenebrosa? Estamos sozinhos, não temos que prestar contas a ninguém. Andamos despidos de preconceitos lúgubres e estranhos.
A batota nesta hora deixa de ser possível, nada faz recuar o filme nem mesmo a lentidão a que a imagem se desenvolve à nossa frente. Apenas nesta altura podemos evoluir construindo as atitudes que julgamos mais certas, e tudo deixa de ser impulsivo. É mais ponderado. E o realismo deixa de ter lógica. Tudo é repensado. Nada mais interessa a não ser o medo de nos esquecermos que aquela é a decisão mais certa.
Escrever o pensamento é imperioso, e o medo de não sair conforme pensei domina todos os movimentos: o lápis quebra a ponta, o computador desligado, e a caneta desapareceu. Resta tentar não esquecer, através da repetição constante que me obriga a afirmar que tudo é lógico. De repente, já nada vale a pena. Aflora um riso aos lábios, olho para os lados, não vejo nada, ligo a televisão e desisto de pensar. Mas leio nas legendas que já não vale a pena fingir. Desligo a televisão porque não gosto do que vejo. E o silêncio cresce.
Não devia ser permitido usar telemóveis em casa. É ele que soa, interrompendo o meu artigo. É o meu filho a dizer que não vem dormir a casa. Tenho de continuar a escrever pois não me apetece acabar. Que grande confusão, então tinha decidido que já não escrevia mais e sigo... inventando?!
Olho para cima e o texto parece-me pequeno. É preciso encher. Então vou mandar isto assim, tão pequeno? Pergunto-me. E o título? Depois de uma performance destas, que desenvolvi ao longo destes largos minutos, a falar das coisas que ficaram por dizer, das que nunca deviam ter sido ditas, das que não mereceram desenvolvimento mais consistente que o mero clicar das teclas ou um simples partir da ponta do lápis, e até da procura insistente de uma caneta que teima em não existir, vou acabar? Assim? Sem mais nem menos? Não!
Quero agarrar nessas matérias que habitam os interstícios do artigo sem subverter lógicas que impliquem um plano ultra-complexo e intricado, como justificação. Tudo tem um fim, até mesmo um artigo que se quer escrever mas que não sai.
Ai como me aborrecem aquelas pessoas que escrevem sempre da mesma forma: exígua, estreita, tão pouco dimensionada para a inteligência. Irrita-me pensar que tenho que escrever para ser lido quando essa não é a razão que me leva a escrever. Aborrece-me que não me leiam, mas aborrece-me mesmo. Aborrece-me que me chamem louco. Aborrece-me estar aqui a escrevinhar nadas quando podia muito bem estar a escrever um artigo para publicar no canallagos elogiando o Júlio Barroso e indicando que o meu candidato preferido era o Nuno Marques, mas que por força das circunstâncias teria que votar no José Valentim. Também me aborrece votar onde todos votam.
Bom. Agora vou ligar a televisão para “ver” se adormeço, que isto já vai desencaminhando.
António Guimarães