Artigos em jornais

A magnânima sabedoria do povo

Abril 2005

Há anos, muitos mais do que os que Abril pode contar, estava sentado na varanda da minha casa ouvindo os recados do meu avô, em forma de advertências, lá do fundo da sua sabedoria e… indisfarçável irritação.

Os meus tenros dez anitos mais não me permitiam senão ouvir e sonhar com o fim daquela chatice. Ouvir os recados do meu avô em vez de partir em empolgantes viagens de triciclo era pura tortura.

Mas recordo este dia porque senti a campainha a tocar cá dentro. O meu avô dissera-me uma coisa que eu já experimentara, mas que me fazia impressão por não entender a sua dimensão e muito menos a sua repercussão.

E eu sei que o que ele dizia era verdade, pois cheguei a sentir a verdade daquelas palavras:

“Quem rouba um tostão é ladrão, quem rouba um milhão é espertalhão.”

Falava-se na cidade de um roubo. De alguém que tinha entrado em casa alheia e que a guarda (GNR) mantinha preso por vários dias. E aí é que residia o acontecimento: o homem tinha sido apanhado a tempo de não roubar nada.

Mas isto indignava o meu avô. Achava ele que na cidade existiam ladrões de sobra para meter na cadeia, e que aquele homem era “pequeno” demais para ser preso. A lição estava dada.

Os ladrões de que ele falava não tinham nome, e ele não me podia dizer mais nada.

A razão de, frequentemente, me lembrar desta cena reside no seu olhar enquanto ma transmitia. Aquele olhar só anos mais tarde revelou que o recado do meu avô vinha envolto nas palavras sábias de quem tinha sido sempre sério, e mais não tinha de essencial que poder andar de cabeça erguida, sem temer nada nem ninguém, e com o pensamento livre, vagueando por todos os lados, num universo de horizontes sem limites. Tal eram os horizontes do meu avô.

Durante anos não entendi que feliz, feliz é quem constrói a sua própria felicidade.

António Guimarães