Alfarrabando
Junho de 2005
Um amigo meu, devoto frequentador de alfarrabistas e “anti-FNAC” convicto, costuma dizer que vai entrar em período de “alfarrabando”, isto é, vai comprar livros “velhos” para o ano inteiro. Há uns anos fomos os dois a um daqueles alfarrabistas que ainda se encontra no Porto. Gosto de comprar romances de autores desconhecidos, é uma mania como outra qualquer, gosto de não saber o tipo de leitura que vou enfrentar.
Estava eu procurando desses livros pelas mesas e prateleiras quando deparo com um de Eugénio de Andrade. Chamou-me a atenção o nome: Primeiros Poemas, edição de 1977, compilação de poemas editados entre 1942 e 1945. Durante anos, convenci-me que o seu primeiro livro publicado era As Mãos e os Frutos em 1948, juraria que nada dele tinha sido publicado antes. Resolvo abordar o homem e dizer-lhe que havia ali um engano. Aquele não podia ser um livro do “meu” Eugénio que tinha preenchido tantas horas da minha juventude, que tinha alimentado tantas noites invernosas, de nostalgia e de nada. Que tinha alimentado tantos males de amor.
O homem olhou para mim incrédulo e reparei que hesitou em me dizer o que lhe ia na alma. Depois de um suspiro revelador do seu desalento, tirou os óculos e, qual último bastião da literatura, brindou-me com uma longa récita de poemas de Eugénio de Andrade, acompanhando com explicações sobre os poemas. Só no final disse ser amigo pessoal do poeta. Revelou-me então que antes das “mãos” haviam sido editados dois livros: Adolescente (1942) e Pureza (1945). No dia seguinte voltei lá para os ir buscar porque ele mos tinha prometido procurar e guardar. Perguntou-me se eu queria mais, respondi que não era preciso. Entre a minha avó, o meu pai e eu, reuníamos toda a obra de Eugénio de Andrade, adquirida pela família, excetuando, claro está, aqueles dois que eu tinha debaixo do braço.
Por ter sido o poeta que mais li, o único que conseguia recitar de cor e salteado, vou transcrever parte de uma notícia que guardo nos meus ficheiros secretos:
“As palavras que mais impressionaram Eugénio de Andrade, no dia em que foi galardoado com o Prémio Camões, foram, como o destino não poderia deixar de querer, escritas. O conteúdo não revelou. Disse apenas que foram enviadas num telegrama por Sophia de Mello Breyner, sua amiga de sempre, com quem há muito não comunicava. ‘A última vez acho que foi quando ela recebeu também um prémio, ao telefone, mas com muita dificuldade em ouvi-la. Tinha a voz muito rouca...’, disse. ‘Houve palavras muito bonitas hoje. Quase afetuosas. Do Presidente da República, do primeiro-ministro...’ Mas um homem de palavras não é necessariamente um homem ligado a distinções, que, para si, deveriam ‘ser atribuídas aos 25 anos pois dar-nos-iam uma alegria muito maior’. ‘Os prémios nunca me preocuparam nem estiveram no meu horizonte. Este tem a mesma importância que os outros. E já recebi muitos. Se escrevo não é por isso. É porque tem de ser…’ (A CAPITAL).”
Nunca consegui perceber o que me leva a reservar a este texto um carinho especial. Acho que aqui há um todo de Eugénio e de Sophia. Provavelmente porque menciona dois poetas meus contemporâneos, referências da minha juventude que marcaram alguns dos passos mais importantes da minha vida. Talvez também porque um dia, na praia da D’Ana, ouvi alguém dizer-me que havia olhares que encerravam poemas lindos. Esse olhar também me acompanha, ainda hoje, e já lá vão mais de quarenta anos.
Passados uns anos, lá para o fim da década de 90, voltei à mesma rua do Porto e a muito custo consegui meter-me por ela acima e entrar no alfarrabista. As obras esburacaram toda a baixa. Lá ao fundo, sentado na mesma cadeira, estava o mesmo homem que eu tinha visto uns anos antes. Olhou-me por cima dos óculos, meneou a cabeça num leve cumprimento e baixou os olhos para o que estava a ler. Eu, sem ligar muita importância, e sem sequer me importar em cumprimentar o homem de uma forma mais afetuosa, lá lancei os olhos às prateleiras procurando... nada de especial, mas apenas interessado em ver se descobriria algo interessante.
Subitamente o homem levantou-se, levantou a mão em sinal de aviso para eu esperar e esgueirou-se para os interiores da loja. Voltou uns minutos depois. Trazia um sorriso nos lábios e dois livros na mão: Adolescente e Pureza, com uma rubrica do Eugénio de Andrade. O homem que eu pensara ter-se esquecido de mim e a quem não dei grande importância ao entrar afinal lembrou-se da promessa que me fizera, tendo-a eu esquecido completamente. Falou com o seu amigo e pediu-lhe o autógrafo naquelas duas edições. E assim tenho dois livros assinados pelo Eugénio de Andrade, esse meu “amigo de infância”.
Em 2001 voltei lá, já não existia. Então recordei com imensa nostalgia uma das vezes que lá fui, há muitos, muitos anos, em que tive que levar o carro até à porta para carregar os livros, e o Sr. Plínio virar-se para mim e dizer: “Sabe que há um cantor famoso que compra livros a metro? Leva a medida da prateleira e compra para caberem.”
António Guimarães