Artigos em jornais

De reunião em reunião, onde raio está a mudança?

2004

A Assembleia Municipal revelou-me mais uma vez — novamente — que está tudo calmo. Estão todos contentes com a governação, não há grandes problemas e a oposição, à falta de melhor, perde-se em atitudes teatrais, onde a retórica é dificilmente inteligível e o elogio substituiu as questões mais quentes. José Valentim e Lili Caneças teimam também em marcar presença...

O Presidente da Junta de Freguesia de Odiáxere foi a grande figura desta sessão. Revelou-nos que tem o trabalho de casa feito e facilitado a tal ponto que a sua intervenção se limitou a rasgar elogios públicos ao Executivo. Segundo Luís Bandarra, Odiáxere vive dias de grande felicidade e competência. Só falta mesmo limpar as ruas e decidir umas coisinhas que há por lá. Mas isso fica para o segredo dos gabinetes. Obra pública só mesmo as alterações à sede do clube e a constatação de que não se sabe até que ponto pode ir a sua autoridade face aos empreiteiros que lhe estragam as estradas da freguesia.

Pareceu-me tudo muito normal e calmo, sem grandes excitações. Mesmo nas tentativas de provocação protagonizadas pelo líder de bancada laranja, que vão colocando Júlio Barroso na confortável situação de, inteligentemente — diria até, complacentemente — as poder refutar. Assim como quem diz: «fala lá prái que já te atendo.»

Assuntos como o recente lançamento de uma campanha para melhorar o Verão em Lagos foram superficialmente abordados — os aspetos relacionados com a segurança foram simplesmente esquecidos, tal como os «parques de estacionamento temporários» em terrenos privados, uma inovação que não se sabe quanto (nos) custa efetivamente.

Estranhamente não vi abordado o assunto do financiamento das obras em curso e por realizar. É que apesar de ter inscrito no Plano e Orçamento da CML, aprovado em Abril, uma verba que seria relacionada com um empréstimo, esta governação distraiu-se e já não foi a tempo de pedir o dinheiro. Agora é tarde porque há uma lei (que só entrou em vigor em Junho!) que congela o endividamento autárquico, pelo que haverá poucas hipóteses do Executivo cumprir com as promessas que fez para atingir o poder. Ou será que estou enganado?

Foram 12 anos de «obscurantismo», como muitas vezes ouvi dizer, até de «caciquismo», como ouvi da boca de uma ilustre militante socialista. Se fosse nesse tempo, aceitava-se que este tipo de atitudes fosse mantido nos gabinetes. Agora que nos foi prometida clareza e abertura é difícil engolir um ambiente de mudança anunciada mas estranhamente adiada.

Mais estranho ainda tudo se torna quando há dias assisti a uma reunião de Câmara onde foi discutida a aprovação da construção de um edifício com 15 fogos quando, alegadamente, só lá se podiam construir 11. Não fosse o técnico da câmara ter lá dito que o número de fogos autorizado foi, provavelmente, ultrapassado, tudo poderia até parecer normal. Quanto à bancada laranja (desfalcada nesse dia do seu «capitão»), António Lopes, em substituição de Nuno Marques, votou a favor, mas a Arq.ª Maria João, ex-vice-presidente da CML, votou contra aquela proposta. Porquê? Estranho, não?

António Guimarães