Americanices
Outubro de 2004
A política americana nunca foi tema que me interessasse muito, até porque vou pouco aos Macs e coca-cola, bebo se não há mais nada. Mas desta vez, com a reeleição de um tipo que acha que a guerra preventiva é a solução para a pacificação mundial, despertou-me a curiosidade ver até que ponto pode chegar a estupidez injetada numa pseudo-democracia que se arroga o direito de querer governar o mundo.
Não tenho dúvida nenhuma de que, mais cedo ou mais tarde, os americanos sofrerão na pele as consequências da sua arrogância relativamente a outros povos. Bush está a colocar em perigo a segurança mundial e, para atingir esse seu execrável objetivo, desinforma deliberadamente os americanos e o resto do mundo. Mais grave ainda é que tem vindo a minar os valores democráticos americanos e dos países onde intervém.
Não nos esqueçamos que, segundo palavras suas, Bush concorreu às eleições de 2000 com um programa que prometia uma política externa “humilde” e onde os valores internos estariam sempre em primeiro lugar.
O 11 de Setembro poderá ter tido a consequência imediata de alterar formas de pensar, mas a meu ver ajudou a demonstrar que Bush não é inteligente e atua de forma irresponsável.
Com Bush reeleito, a guerra preventiva que ele inventou obrigará o resto do mundo a viver com as consequências inerentes a esse processo. Definitivamente, está dado o primeiro passo para a explosão de uma bomba nuclear em território dos Estados Unidos. O chefe da rede terrorista Al-Qaeda, Osama bin Laden, apareceu num vídeo divulgado pela televisão Al-Jazira a 28 de Outubro, no qual dirige uma mensagem ao povo americano relacionada com os atentados do 11 de Setembro de 2001 e coloca a possibilidade de novos ataques. Na mensagem, bin Laden evoca “as razões e os resultados” dos ataques do 11 de Setembro de 2001 contra os Estados Unidos que causaram cerca de 3.000 mortos. Diz ele que “…permanecem as razões para a repetição do que se passou a 11 de Setembro de 2001”, afirmando mais adiante que a segurança do povo americano “…não está nas mãos nem de Kerry nem de Bush. A vossa segurança está nas vossas mãos – povo”.
Apesar dos meios envolvidos, mais de três anos depois do 11 de Setembro, prossegue a perseguição a Bin Laden, sem sucesso.
Com Bush reeleito, a América terá oportunidade de sentir na pele a falta de respeito do resto do mundo. Hoje já ninguém teme o poderio americano, não é só Bin Laden. Hoje os Estados Unidos são o país mais vulnerável a um ataque devastador, mas não convencional, portanto impossível de prever.
Bush foi após o 11 de Setembro (e continua a sê-lo) um pau mandado às ordens de Osama bin Laden. A invasão do Afeganistão é a prova disso, a invasão do Iraque outra. Nem uma nem outra têm qualquer tipo de justificação no âmbito de uma política externa inteligente.
A guerra no Iraque provou que os generais americanos estão mal preparados para este tipo de guerra e que vivem alheados de uma realidade que lhes passa ao lado. Quando os soldados americanos encontraram resistência e assim que surgiram os primeiros constrangimentos, empregaram métodos impróprios e resultantes de uma confiança excessiva. Invadiram lares comuns, maltrataram prisioneiros, saquearam por alienação a população e humilharam-na, dando origem ao ressentimento, à raiva e à consequente vingança.
António Guimarães