O sabor da escrita
2003
Quando há uns anos comprei um livro de crónicas de um famoso cronista espanhol que assinava uma coluna semanal numa revista de Madrid, entretanto desaparecida, julguei que tinha feito mal e que seria mais um daqueles livros que compramos e acabamos por não ler.
Enganei-me. Devorei-o e ainda hoje pego nele para reler algumas das crónicas mais intemporais. Desde então, são incontáveis as crónicas que têm feito as minhas deliciosas noites de leitura: uma mão na cabeça, a outra a agarrar o livro, o cheiro forte dos cigarros que me vão consumindo. Foi a fórmula que achei ótima para rejeitar um aparelho que, de desilusão em desilusão, tenho felizmente abandonado: a televisão.
De tempos a tempos, não mais deixei de comprar compilações de crónicas. Alguns destes livros até os leio ao longo de muitos meses, talvez anos. O interessante neste tipo de trabalhos é a despreocupação: não há obrigatoriedade de leitura sequencial. Podemos ler do fim para o princípio, do meio para onde quisermos, ou apenas algumas partes. São livros que nunca acabamos de ler.
Um dos cronistas que ocupa os meus momentos de leitura nestes últimos dias é Miguel Sousa Tavares. Já lhe critiquei ideias e opiniões, até já lhe escrevi sem resposta, mas tenho de me render às suas qualidades de escrita da crónica no estilo mais puro e simples que temos nos nossos dias. Os dois excelentes trabalhos de compilação que adquiri numa livraria impeliram-me à escrita deste comentário. Se eu tivesse tido a capacidade de os escrever, nunca permitiria que fossem vendidos em hipermercados. Digo-o com nostalgia dos tempos em que passava horas a fio a ler lombadas de livros numa livraria da minha rua em Lisboa. Tempos que já não voltam, mas que não esquecem.
Há muitos anos que leio as suas crónicas, muitas vezes com o fito de contestar, de acirrar a minha repulsa pelas suas ideias sobre o “meu” Algarve. Mas de cada vez que releio E Ela Dança, reconheço uma sublime descrição, onde o ensaio se mistura com a poesia e a música de fundo é perceptível. Só possível sair da pena de alguém dotado, a quem até desculpo os impropérios que se atreveu a dizer da minha cidade.
Os seus trabalhos na imprensa, principalmente os de índole política, revelam-nos um homem arrogante e acutilante, mas informado na dose certa e na altura exata, evitando opinar sem profundo conhecimento da matéria. Consultei na Internet uma imensidão de opiniões sobre este escritor e é inquestionável que o sentimento constante é a rendição à qualidade e simplicidade dos seus escritos.
Miguel Sousa Tavares é, sem dúvida, um dos melhores cronistas que podemos ler nos jornais dos nossos dias. O vedetismo em que se tornou não lhe melhorou nem piorou a escrita. Restam-nos os frutos e malefícios de ser vedeta, mas sobretudo o prazer de ler. Ler, só ler, com aquele som de fundo que mais parece o rabiscar apressado de quem tem que dizer antes que esqueça.
Ele consegue o que poucos sabem: ser claro e incisivo, ousando utilizar uma linguagem controladamente ofensiva, mas sem se refugiar no estatuto de estrela. Comenta com realismo, atualizado, fundamentando-se na sua vasta cultura geral e na sua fantástica perceção da situação e do momento. Com convicção, defende ideias mesmo sabendo que pode ser aplaudido hoje e vaiado amanhã. Isso não o impede de imprimir à escrita a melodia que é de facto o que de melhor nos tem oferecido.
PS: Mas o livro, hoje, pode ser adquirido num hipermercado. Lá somos confrontados com uma imensidão de títulos dispostos de forma indecorosa. Nunca percebi porque se compram livros num hipermercado. Confesso que já comprei um — o de Cavaco Silva — mas arrependi-me de imediato, talvez antes mesmo de chegar à caixa. Misturar livros com batatas e couves não cabe nos hábitos que tenho vindo a mudar. Nunca mais comprarei nenhum. A promessa resulta do facto de não o ter conseguido acabar de ler. Não que fosse desinteressante, mas o estilo não me agradou e o tema ainda menos. O pior foi a lembrança de o ter pago ao mesmo tempo que um saco de batatas e latas de cerveja. Livros compram-se na livraria, e isso influencia a forma como leio. Porquê? Não sei.
António Guimarães