Artigos em jornais

Rasquice, a quanto obrigas!

25 de Março de 2003

Se deixar o pensamento vaguear indiscriminadamente e sem condicionalismos éticos sobre todos estes acontecimentos que nos têm afligido nos últimos dias, projetando-os num tempo futuro, chego à conclusão de que tudo está errado e provavelmente estamos a viver uma época que ficará conhecida pela dos políticos rasca.

Efetivamente, a grande maioria das atitudes tomadas pelos líderes mundiais é de uma rasquice tremenda.

Franceses, Russos, Chineses e Alemães já não escondem as negociatas que fizeram durante estes últimos 12 anos com Saddam. Americanos, Ingleses e Australianos já falam abertamente no petróleo e pedem aos iraquianos para não incendiarem os poços.

Blair e Bush atacam o Iraque e falam em reconstruir o país antes mesmo de o terem destruído. Que atitude mais rasca, que tristeza de raciocínio que produz semelhante pensamento.

Nesta guerra não está em questão quem tem razão ou não, está em questão a razão que leva ao morticínio de inocentes governados por políticos rasca, de ambos os lados. Refiro-me também aos militares de um lado e outro, primeiros inocentes no meio de tudo isto.

Esta é de facto uma geração de políticos rasca, de senhores do mundo, criados como monstros, que gastam milhões de dólares e euros para se encontrarem numa ilha no meio do oceano com a única finalidade de decidir o que pode ser decidido num simples telefonema.

É a geração que produziu homens capazes de embelezar cidades com palácios sumptuosos, estátuas suas por todo o lado, enquanto os habitantes morrem de falta de condições dignas de saúde, até de fome.

É este o mundo em que vivemos, regulado e governado por gente rasca que nasceu no seio de famílias abastadas, que não tem o mais pequeno conhecimento do que é o sofrimento de um povo, que nunca teve a coragem de cancelar as contas privadas de Saddam espalhadas em bancos europeus, americanos e japoneses, que nunca teve a coragem de proibir as suas movimentações obscuras no seio dos meios financeiros por esse mundo fora, que continua a ter medo do seu poder, que continua agarrada ao poder do petróleo.

Esta é uma geração de políticos que se aproxima perigosamente da sua própria destruição, deixando no vazio uma geração que não entende nada do que se está a passar e que prefere falar de humanismo, de respeito pelo próximo, de amor, de igualdade, de fraternidade, mesmo que essas palavras surjam debaixo do efeito dos produtos que a obrigam a esquecer o mundo rasca à sua roda.

É uma geração de políticos corruptos e desprovidos de sentimentos que, à custa do petróleo e do poder dos cartéis da droga, afirmam não querer a guerra, mas fomentam as fábricas que produzem armas e emprestam dinheiro a presidentes corruptos e assassinos.

Tudo por receio de perder os proveitosos negócios que sempre têm feito à custa de sangue alheio.

É uma geração de políticos que se fazem transportar em automóveis de luxo, muitos construídos propositadamente para eles, que vivem rodeados de mordomias em habitações desnecessariamente luxuosas, que têm o poder nas mãos de tal forma que se esqueceram da essência da vida e são incapazes de enviar um pacote de manteiga para alimentar uma criança africana porque isso afeta os seus lindos números.

Agora, e depois disto, já não basta denunciar, é preciso atuar. Retirar-lhes o poder é imperioso!

António Guimarães