Artigos em jornais

PEL’a Cidade?

Fev-2003

Planear uma cidade de pequenas dimensões como Lagos não deve ser uma tarefa muito difícil e executar um plano estratégico que a contemple também não me parece nada do outro mundo.

Tendo em conta que Lagos dispõe de técnicos abalizados, pessoas interessadas e que tanto uns como outros já opinaram por diversas vezes nesse sentido, motiva-me a pensar que talvez ainda não seja tarde para se mudarem as vontades e atitudes. Principalmente que se esqueçam birras partidárias e desconcentrações prejudiciais ao futuro mais próximo.

Da Meia-Praia ao Porto de Mós assistimos a perfeitas aberrações arquitetónicas que irão condicionar e descaracterizar a “vida de cidade”. Mas não são apenas as aberrações arquitetónicas que afligem: o que mais assusta é a constatação da desorientação política que permite, ao fim de sete meses de governação, optar por uma continuidade de qualidade duvidosa e pela falta de coragem de dizer frontalmente que este modelo não interessa a Lagos.

As sociedades contemporâneas tendem a viver no excesso de consumismo, a todos os níveis, e os agentes económicos tudo fazem para aproveitar um “buraco” qualquer que lhes permita um lucro fácil e rápido. Todos criticam esta atitude social e urbana, mas tanto os poderes instituídos como os adquiridos nada têm feito para minorar os malefícios sociais da extrema dependência do consumismo. Basta ouvir os telejornais para sabermos que caímos na armadilha como anjinhos. Mas o mal pode ter outras dimensões e ter começado pela implementação de políticas de ordenamento e licenciamento erradas.

Esquecemo-nos com frequência que a vida não é só ir ao hipermercado e centros comerciais, nem só viver das férias dos outros. Temos que olhar para dentro, onde valores culturais e desportivos também são importantes.

Lagos tem que deixar de ser palco de uma luta de interesses comerciais, onde os atores são sempre os mesmos: os construtores civis. Como se a nossa vida se resumisse à quantidade de tijolos que é possível colocar no espaço urbano.

É, por isso, imperioso que se coloquem novos desafios, tanto àqueles a quem confiámos os destinos das nossas cidades, como aos utentes do poder delegado. Há que travar o crescimento desordenado em função de “lobbies” duvidosos.

Poderá não ser necessário destruir nem expandir, poderá apenas ser necessário reordenar socialmente, reclassificar espaços, aproveitar equipamentos existentes, num contexto económico e social onde, no nosso caso, o turismo é o mais importante fator de condicionamento, já que a maioria dos agentes económicos presentes estão sujeitos a ele e à sua sazonalidade, consequentemente o cidadão comum.

Perguntem-nos o que queremos. Crie-se um conselho de opinião que desenvolva o seu trabalho com base nessa consulta. Opinar sobre o nosso futuro já não pode ser só um direito, temos que o transformar numa obrigação de cidadãos interventivos e interessados no futuro.

António Guimarães