A “Mudança”
Setembro de 2003
Sendo o turismo, senão a última, mas a mais importante fonte de receita e crescimento no nosso concelho, importa refletir sobre o que se está a fazer e sobre o que não se faz.
Há muito que oiço os responsáveis pelo turismo regional dizer que nos remetemos à venda de sol e praia, aceitando que é manifestamente pouco e que se deveria ir mais longe. Mas nunca os ouvi dar ideias ou conceber novos produtos. No que diz respeito à promoção do Algarve fora de portas, é lamentável a falta de ideias e a total inoperância de todas as ações de que tive conhecimento. Ficou demonstrado na última BTL que os destinos do turismo na região, enquanto estiverem nas mãos da RTA, estão em muito más mãos.
Não é tarde para mudar atitudes, nem é tarde para mudar as pessoas, já que penso estar o mal precisamente nas pessoas que condicionam o turismo algarvio. Ainda é possível mudar mentalidades e formas de intervir, se, com humildade e dignidade, estivermos na disposição de observar o que de melhor se faz por esse mundo fora e, de uma vez por todas, aprender.
Ainda estamos a tempo de dar a volta por cima.
Num segundo momento, deparamo-nos com a constatação de que os recursos mobilizáveis para a criação das infraestruturas necessárias e desejáveis acabam por ser insuficientes para garantir o sucesso de qualquer iniciativa. De novo, as pessoas são as responsáveis pelos constantes insucessos.
Há que mudar! Ninguém duvida. Mas então que se comece pelo principal motivo da estagnação da nossa principal fonte de receita: as pessoas. Sem contemplações e com coragem é preciso substituí-las, visto que não fazem nada em prol do turismo, nem nada que justifique o dinheiro que ganham. Não têm ideias, não têm iniciativa e estão demasiado dependentes do poder político/partidário. Mais grave ainda, falta-lhes coragem para contrariar o “patrão” retrógrado: o governo.
Investimentos no turismo são vistos em todo o mundo como fator de crescimento que gera empregos, incentiva a economia, impulsiona o comércio e alavanca outros negócios não diretamente relacionados com o turismo. O mercado turístico tem potencial para arrecadar milhões de euros e divisas estrangeiras, sendo considerado um dos maiores geradores de emprego em comércio e serviços. Em Espanha, já começa a atacar negócios relacionados com a produção de bens.
Diversificar os produtos turísticos é fundamental para atender aos vários ramos de consumo dos mercados geradores de turistas. É preciso explorar recursos naturais e culturais extraordinários, rentabilizar monumentos, otimizar transportes públicos e ordenar as atividades económicas.
Não somente pelo incremento do mercado de turismo em Lagos, mas também pela constante falta de cumprimento das promessas do governo, é preciso que a autarquia assuma localmente e definitivamente o papel controlador desta indústria, apostando no crescimento com inovação e determinação. As pessoas à frente do setor têm que ser profissionais com provas dadas, com vontade de inovar e concretizar. Já não estamos em altura de novas experiências.
É neste contexto que se verifica que ainda não foi feito um estudo sério sobre as oportunidades de negócio. Não sabemos onde estão os potenciais investidores, nem o que temos para rentabilizar. Um estudo desta natureza só pode ser realizado por pessoas ligadas aos setores económico, comércio e turismo, mas tem que ser liderado e supervisionado pela autarquia.
Eu proponho abandonar a inatividade e passar à ação:
Primeiro: Saber o que queremos.
Segundo: Criar as estruturas necessárias.
Terceiro: Procurar investidores, falar com eles, incentivar e demonstrar que Lagos é o local ideal para investir.
Quarto: Dizer aos mercados geradores de clientes que estamos aqui e o que temos para vender.
Quinto: Colher os frutos, com regras e de forma democraticamente ordenada.
Um número de possibilidades inexploradas são um mundo de oportunidades a explorar turisticamente em Lagos. Isto só se consegue com iniciativa e coragem, através da profissionalização dos meios.
A municipalização plena do turismo, alterando estruturas regulamentadoras e abandonando políticas falhadas, dedicando atenção especial ao desenvolvimento turístico, só poderia resultar na criação de uma cultura turística abrangente. Uma nova forma de estar em Lagos.
Claro que a educação é o ponto-chave. Os organismos municipais não podem ser vistos como únicos responsáveis, mas o município, enquanto líder, pode fazer com que o desafio seja cumprido. Pode transformar o que hoje parece utópico numa feliz realidade.
Este processo tem que ser liderado pela autarquia. Nenhuma outra entidade está capacitada para o fazer. Isso mesmo tem sido demonstrado pela total inoperância das Regiões de Turismo, especialmente a do Algarve, que tristemente fala todas as linguagens menos a do turismo.
Nenhum grande projeto se realiza do dia para a noite, mas também nenhum projeto se realiza sem uma proposta estratégica clara, séria e consciente. Sem plano. Sem definição de objetivos.
Acredito na capacidade de ampliarmos a indústria do turismo em Lagos num trabalho de equipa, consciente, onde cada lacobrigense terá o seu papel. O que não podemos é ficar de braços cruzados à espera de soluções. Temos potencial, temos capacidade de criar e gerar ideias, só nos falta lançar mãos à obra.
É isso, Sr. Presidente da Câmara de Lagos: lançar mãos à obra. O senhor, mais do que ninguém, tem a obrigação de liderar um processo desta natureza. As expectativas que gerou em todos nós quando ganhou a “cadeira do poder” estão cada vez mais ténues. Não deixe que, ao menos no turismo, elas se reduzam a nada!
António Guimarães