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E agora? Ficamos pelo "até qu'enfim?"

Maio 2003

Em 1922 chegou ao Algarve a linha férrea (penso que estou certo, mas também não tenho paciência para me certificar da exatidão da data). Em 2003 chega a autoestrada que nos liga com alguma rapidez e desafogo ao resto do País.

Com a liberdade que me assiste nas contas pouco exatas, permito-me dizer que este quase século de intervalo entre um “feito” e outro revela exatamente a importância que todas as governações deram à região algarvia e especialmente a Lagos. Isto é, nenhuma. Deixando de lado os atrasos, os anúncios constantemente adiados dos governos anteriores, as promessas de ministros em vésperas de férias — onde ressalta o mais mediatizado, protagonizado por Jorge Coelho — é preciso que o acontecimento se transforme rapidamente numa ferramenta de progresso para Lagos e da retoma da posição que nos é de direito no panorama regional e nacional. Embandeirar só porque ela está feita e chega às portas de Lagos não chega.

Não é com a panóplia de faixas a dizer “mais vale tarde que nunca” e “até qu’enfim” que adiantamos alguma coisa. Na minha modesta opinião, aqueles cartazes são dispensáveis e foram um dispêndio de verbas absolutamente desnecessário. É preciso que seja criado um departamento municipal que estude as perspetivas de investimento privado no município. Departamento que deve ser integrado por pessoas intimamente ligadas aos setores que mais se mostram aliciantes para os investidores. No turismo, a hotelaria de 5 estrelas e o aproveitamento empresarial dos equipamentos de lazer já existentes revelam-se os subsectores mais promissores. Mas este departamento tem que ser, corajosamente, apolítico, cabendo aos responsáveis autárquicos procurar quem entenda do assunto e aliciá-los a prestar um serviço à comunidade.

Existem em Lagos pessoas que falam a “linguagem” dos investidores e que estão estagnadas porque as perspetivas de rentabilizar os investimentos se resumem à construção de um prédio, à abertura de mais um restaurante e pouco mais. É preciso aliciar o investimento. É preciso ver que existem empresários — os da construção civil destacam-se — que estão interessados em diversificar as suas atividades. É preciso dar-lhes alento através de um apoio sustentado no conhecimento e no profissionalismo.

Pactuar com quem prejudicou Lagos décadas a fio não fica bem a uma mudança que se queria, além de anunciada, concretizada. As faixas são, a meu ver, mais do mesmo e não passam do aceitar tácito de que fomos prejudicados e que não há nada a fazer senão refilar.

Ato a ato, verifica-se que nos pormenores mais simples a mudança traduz-se numa repetição das atitudes, com formas de lá chegar algo “revolucionárias”. As ideias ficam permanentemente na gaveta, revelando receios de correr riscos. Até parece que não há ideias novas, que não há coragem para concretizar as que existem. Cheira a que se limitam a provocar político-partidariamente o governo, como se isso bastasse para mudar.

Não! Não vale mais “tarde que nunca”. O que vale é dizer que está mal e exigir que não se repita. Mais vale estar preparado para rentabilizar o equipamento que agora está à nossa disposição. Mais valia ter assumido que agora tudo vai ser diferente, mas sem esquecer as atitudes discriminatórias a que temos sido sujeitos.

O Algarve, calhando, é uma das províncias mais importantes do País. Está na primeira linha de uma “faturação” fácil, rápida e limpa de investimentos eminentemente técnicos ou científicos. Na conjuntura atual da economia mundial, o turismo é o setor onde mais rápida e facilmente se rentabiliza a região em causa. Através do turismo consegue-se um crescimento económico sustentado e até duradouro. Nós estamos numa região com as melhores características para avançar no pelotão da frente entre os países europeus. É preciso fazer valer o “tarde” e impor que o “nunca” não exista na nossa linguagem.

Está tudo feito. Dos resorts aos paraísos dos “patos bravos” temos equipamentos para uma oferta alargada. Precisamos de novas ideias, de alguma inovação nas cabecinhas pensantes e de destreza nas decisões. Coragem quanto baste para termos cá os “ricos turistas”, mas também os pobres.

O crescimento económico de Lagos não se compadece com atitudes pouco profissionalizadas, nem com ideólogos demasiado politizados e enraizados em ideologias que já provaram ser fator de estagnação. Muito menos se compadece com experiências que atrasarão os procedimentos necessários.

Com o abandono das atividades económicas relacionadas com a pesca e a agricultura — mola real da indústria de transformação a que poderíamos ter acesso — resta-nos os serviços. Aqui entra o turismo em pleno, que utiliza os meios de transporte para trazer dinheiro à região. Vamos fazê-los vir pela autoestrada, já que não podemos utilizá-la para escoar os produtos que deveríamos produzir.

António Guimarães