Artigos em jornais

Digital regional

Outubro 2003

Quando procuramos no nosso computador a página oficial da Câmara Municipal de Lagos, deparamo-nos (há quase dois anos) com a informação de que a página está em reestruturação. Não é dada qualquer justificação. Sabe-se que Lagos aderiu a uma ideia que já provou, há anos, não resultar: o Algarve Digital.

Ao fim de quase dois anos de governação desta equipa liderada por Júlio Barroso, constata-se que não está a acompanhar o rápido desenvolvimento da Internet. A ausência total de um paradigma dominante nesta área e a falta de movimentos são uma evidência. Não se conhece com rigor a forma como o “projeto Internet de Lagos” se encontra a desenvolver face ao mercado, às novas tecnologias e às características dos potenciais investidores. Não sabemos sequer se foi elaborado um estudo que permita conhecer a sua evolução e posicionamento no mercado, ou como se articula com as necessidades empresariais e sociais locais.

O Algarve Digital, nos moldes em que foi pensado e realizado, é um fiasco. Há anos que o digo e a fraca audiência do site dá-me razão. O projeto nasceu defeituoso: muito ambicioso, mas sem ideias sólidas a sustentá-lo. Não faço ideia de quanto custou, mas na altura da Feira em Silves falava-se em centenas de milhares de contos. Ao longo destes anos não passou de um projeto obsoleto, sem conteúdos de interesse, um autêntico desastre. Lagos inseriu-se nele mesmo sabendo que algo estava mal.

No espaço de um ano foram efetuadas 131.525 visitas (não significando 131.000 pessoas diferentes), número manifestamente insuficiente para os objetivos propostos em 1999. Outro dado curioso: apenas 112 utilizadores registados. Com estes números, é fácil tirar conclusões.

A evolução dos conteúdos e formatos na rede tem produzido alterações significativas no universo de utilizadores. Quem produz trabalhos na web tem que acompanhar esta evolução. Quem lidera também! Lagos precisa de uma página que interaja com o utilizador na área do investimento. É urgente criar um Espaço do Investidor, uma espécie de banco de ideias, onde empresários interessados possam consultar empresas existentes, projetos em curso, regras e condicionalismos. Exemplos não faltam: em Espanha, algumas autarquias disponibilizam informação detalhada, desde reservas de hotel até projetos em curso, formulários e taxas autárquicas. Em Portugal, basta ver a página da Câmara de Guimarães, já em estado avançado, embora ainda careça de evolução significativa no apoio ao investidor.

Claro que projetos como este têm custos e dificuldades. Mas em Lagos a realidade é diversa: nada está definido e o que existe fica no segredo dos deuses. Fala-se muito, age-se pouco. Não foi nada disto que nos prometeram. A falta de ideias é notória. Vai-se comprar lá fora o que temos em casa.

O Fórum Lagos, esperança para muitos, propôs-se elaborar ideias para a cidade. Para a primeira conferência convidaram-se académicos com graus invejáveis, mas vieram dizer-nos aquilo que já sabemos. Não se convidou nenhuma força ativa local, nenhum empresário, urbanista, arquiteto ou cidadão comum que pudesse confrontar ideias e tornar a conferência minimamente conclusiva.

Para meu pasmo, ouvi académicos dizer que os Planos Estratégicos em curso falharam invariavelmente em todo o lado, contrariamente ao que Júlio Barroso afirmou ao abrir os trabalhos, quando disse que o caso de Lisboa foi um sucesso. Estará mal informado? Ou terá opinião diferente? Em qualquer dos casos, foi um belo começo.

De oportunidade em oportunidade, a governação vai perdendo a chance de iniciar a Mudança, perdendo-se em espetáculos de propaganda política como se todos nós fôssemos um verbo-de-encher.

No fim ficou a questão: qual o efeito prático das conferências sobre o PEL (Plano Estratégico de Lagos) se o concurso público para a escolha da equipa que o vai elaborar já estava lançado? Não seria mais lógico que antes se soubesse o que queremos para Lagos? Não será tudo isto um desperdício de energias, já para não dizer de dinheiro?

António Guimarães