Artigos em jornais

As armas da guerra

Abril 2003

A quem esta guerra no Iraque passou despercebida, resta a consolação da felicidade na despreocupação. Não se vai importar que o mundo esteja em franca mudança. Não se vai importar que, em vez de evoluirmos para uma sociedade mais justa e equitativa, retrocedemos algumas centenas de anos. Voltámos ao tempo dos impérios de senhores do mundo. Voltámos ao tempo dos governantes sem capacidade para tal, mas com a força dos exércitos.

Hoje ouvimos figuras públicas tomarem posições contraditórias, algumas até conseguiram baralhar as ideias dos incautos. Lemos artigos aberrantes, outros cautelosos, poucos inteligentes. Ouvimos comentadores dizerem e desdizerem-se. Concordamos estar a acontecer o momento que marcará o evoluir dos próximos tempos.

O acompanhamento exaustivo de uma guerra por parte dos meios de comunicação social mundiais já não era novidade. Mas agora fizeram-no a par e passo. Estranhamente, os jornalistas correm perigos absolutamente desnecessários: estão no meio das bombas, metidos nos tanques, no meio do fogo, acreditam nos ataques cirúrgicos dos americanos sem colocar em dúvida a eficácia do sistema bélico dos fazedores da guerra. Mas a tragédia aconteceu, e por diversas vezes. Morreram jornalistas demais para não serem parte integrante da guerra.

Nada importa senão preencher o monstruoso que a informação tornou num espaço de tempo que tinha que ser agradável: a hora nobre. O Hotel Palestina, verdadeiro centro de imprensa da guerra no Iraque, foi atacado por forças americanas e constantemente assediado pelos mesmos.

Porquê? Porque lá estavam atiradores com armas sofisticadas ao ponto de denunciar?

Não interessa dissecar sobre a necessidade, ou não, de uma informação tão pormenorizada. Não interessa saber se os riscos são calculados. Interessa saber se a opinião pública deve ou não ser informada ao ponto de o macabro ser utilizado como uma arma efetiva da guerra. Aquela que é realmente eficaz. Interessa saber até que ponto podemos ser utilizados numa guerra conduzida por um conjunto de pessoas que nada têm a ver connosco.

Será que os valores que regem as sociedades, após esta guerra, serão alterados ao ponto de termos que nos adaptar a novos meios de relacionamento com a comunicação social? Até mesmo entre nós próprios, enquanto cidadãos do mundo?

Será que após esta guerra temos que pensar muito bem antes de pegar num jornal ou ligar a televisão? Não vá dar-se o caso de sermos os atores principais de um teatro de guerra e aí procedermos à escolha do lado que defendemos?

Será que é essa a verdadeira razão que leva os jornalistas a correr o risco de vida? Será que não é suficiente saberem eles mais do que nós?

Todos sabemos que os generais já não estão confinados aos quartéis. Todos sabemos que é importante que os militares se apresentem como os bons da fita. Mas o que ainda não sabemos é se uma vitória no campo de batalha corresponde à vitória real de uma guerra qualquer, quer seja esta, quer seja a que está para vir. Falta o resultado da “opinião pública”.

De nós, portugueses, quem não ficou admirado ao ver militares fardados a rigor nos estúdios de televisão tecendo considerações sobre o evoluir da guerra? Será que eles não fizeram também parte ativa da guerra? Quem não se espanta com generais dando opinião?

Será que isto não é o prenúncio de uma mudança radical nos valores que temos defendido desde sempre?

Será que a chuva civil já molha militar?

António Guimarães