Artigos em jornais

Lagos 2002

Janeiro 2003

Propositadamente, no artigo anterior não me referi a Lagos, isto porque pensei dedicar umas palavrinhas exclusivamente à cidade e ao ano velho, ano novo.

O ano velho foi quase exclusivamente dominado pelas eleições e pelo “suspense” dos resultados. Resta-nos recordar com alguma nostalgia o stress da campanha, o do próprio dia e das opiniões que invariavelmente acabavam numa incógnita. Vivemos uma situação nova, com um novo protagonista.

Foi com uma revelação que o ano velho se despediu: Lagos esteve particularmente interessante porque nos revelou um eleitorado consciente da sua posição perante a particularidade das eleições autárquicas e da forma como todos devemos encará-las.

O resto do País transformou a ida às urnas num sério aviso ao PS, para que se defina e arranje pessoas à altura de governar o País. Nós, por cá, ficámo-nos pela certeza de que misturar águas não traz bons resultados, mas principalmente colocámos os interesses da cidade e do concelho acima de quaisquer outros. Lição que, a meu ver, não teve a projeção que deveria ter, principalmente por parte do Sr. Primeiro-Ministro, mas isso é outra conversa.

O ano novo poderá até trazer a Lagos essa projeção, mas também outra situação há muito desejada por uma larga camada da população, especialmente a mais nova: a importância dedicada a quem ardia em desejo de poder utilizar as urnas para dizer de sua justiça e de sua vontade.

Vamos todos viver uma situação nova, sem paralelo com qualquer outra, apesar de alguns tentarem fazer analogias nostálgicas que mais parecem o transparecer de amarguras que teimam em se manter vivas.

A bipolarização política/partidária a que Lagos assistiu não é, de modo algum, uma situação aliciante para quem tem opinião. Encontramos em ambos os lados coisas boas e más, mas a meu ver, o que se passou em Lagos no ano 2001 foi uma definição de vontades e não um aperfeiçoamento ideológico, muito menos uma mudança de opiniões.

Também em 2001, em termos políticos, não partilho da opinião de alguns que afirmam ter sido a governação de José Valentim um “pesadelo”. Aceito que se pense assim e nem sequer questiono os argumentos evocados. A democracia obriga a que o cruzamento de ideias resulte em decisões onde o bom senso deve imperar. Por isso pensamos, logo existimos!

No entanto, custa muito aceitar quando se ouve dizer que agora, com Júlio Barroso no poder, a história seja mais democrática. Custa aceitar que a história “escrita” por José Valentim não seja democrática. Mas estas afirmações farão parte da história democrática da cidade e quem as proferiu será lembrado. De que forma? Isso só mesmo a história dirá.

A universalidade de atos democráticos — a ida às urnas, por exemplo — e a sua pureza não podem ser classificadas como mais ou menos democráticas em função da facção que obtém mais votos. A história de uma cidade é feita pelas pessoas, que são pequenas demais para dizer que a história da nossa cidade agora “retoma novas qualidades”.

Quem somos nós para alterar o passado? Quem somos nós para o esconder?

O ano terminou com a vitória de uma individualidade lacobrigense, que colocou às claras uma maneira de estar na vida, uma forma de abordar os assuntos e uma forma de fazer política diferente de tudo quanto nos habituaram. As bases deste novo conceito parecem-me puras e sem preconceitos, mas o que mais gostei foi de ter sentido que Júlio Barroso enjeita até as normas estabelecidas de como se deve estar na política.

Analogias com outras épocas são pura ficção, ou mesmo um saudosismo pouco apetecido e que pouco tem a ver com a novidade de um ano novo, capicua.

António Guimarães