Vira o disco e “tocó memo”
23 de Janeiro de 2002
O processo de escolha dos candidatos a deputados nunca deveria estar sujeito a pressões individuais ou à mera troca de favores. A democracia tem a sua expressão máxima no Parlamento, sendo os deputados o alicerce desse sistema. Sem isenção, não há democracia.
Hoje debruço-me sobre o processo de escolha de deputados dentro do PS algarvio. Apesar de a ideia que formei assentar em suposições e poucos factos concretos, arrisco o comentário. Não é novidade que a elaboração das listas de deputados socialistas pelo Algarve à Assembleia da República iria agitar as águas no seio da Federação, num processo que poderá até nem ser pacífico.
Carlos Matos conseguiu juntar uma série de nomes de cidadãos — socialistas e não só — que manifestaram interesse na sua manutenção no Parlamento. Por diversas vezes pedi para ver o documento, nunca consegui, mas também nunca disse que o queria assinar. Penso que terá tido um trabalho em vão e acredito que não vai conseguir que o seu nome seja incluído nas listas. Terá, no entanto, conseguido alertar esses cidadãos para o facto de os “lobbies políticos” dominarem o aparelho do PS.
É um dado adquirido que as estruturas regionais do PS não gostaram de ver surgir uma forma de pressão pouco habitual. Segundo consta, serão mais de duas mil assinaturas, mas o PS/Algarve parece ignorá-las, argumentando com conceitos caducos de escolha de nomes. A derrota socialista nas autárquicas poderá complicar ainda mais a já difícil escolha, mas a ter em conta o que circula — as conversas de bastidores — os nomes vão repetir-se. De lição em lição, os socialistas não aprendem nada.
Engraçado seria se essas pessoas, as da lista — a serem mais de duas mil já são muitas — se dispusessem a não votar caso o seu “deputado” fosse preterido em favor de uma figura imposta à revelia das bases do partido.
Alguns históricos do PS no distrito não escondem o receio de serem “varridos” do xadrez político. Para aqueles que não têm ambições ou que já as cumpriram, o sentimento de renovação é latente. Muitos gostariam até que nenhum nome se repetisse, nem mesmo o de Carlos Matos. A renovação poderia começar agora, aproveitando os ventos de feição e mostrando que a lição está aprendida. Seria um ar fresco no clima saturado das cúpulas socialistas.
Poderia até correr-se o risco de dar a volta por cima, mostrar que se começou a pensar a sério dentro do partido e não apenas em função de “jobs”.
Outro facto relativo aos deputados socialistas que me impressionou ouvir foi o compromisso de que os propostos pelo PS têm de exercer funções no Parlamento caso sejam eleitos. Apetece perguntar: o que têm lá andado a fazer estes anos todos? Não será esta uma condição inerente ao cargo? Será que tem de ser objeto de compromisso? Até dá vontade de rir.
Já o “princípio da autenticidade”, que determina que os futuros deputados do PS ficam impedidos de abandonar o Parlamento para regressar a uma autarquia ou serem nomeados pelo futuro governo para funções noutros lugares do Estado — governos civis, conselhos de administração de empresas ou institutos criados para calar vozes incómodas — parece-me uma medida inteligente. De segundas escolhas está o Parlamento cheio; ter por lá algo mais do que mera vulgaridade seria, de facto, uma renovação.
António Guimarães