De imediato, que futuro?
Novembro 2002
Mal viria ao mundo se dos homens não fosse o direito, indiscutível, de defender a sua Dama. Sejam eles modernistas, saudosistas obscuros, escuros ou claros, de esquerda ou de direita, ou sejam lá o que for, é um direito que lhes assiste.
Mas, como sempre, mal vem ao mundo porque o interminável número de “mas” que vamos tendo que atribuir a todas as frases que produzimos quando discutimos as politiquices da nossa “urbe” se torna, a cada dia, uma enorme chatice. Cada vez mais vêm a público defensores desta ou daquela tendência, argumentando em prol de decisões que deveriam, antes de defender, ponderar as consequências e os motivos que levaram a não cumprir, tanto os objetivos como as promessas. E não pensem que me refiro a alguém em especial: estão todos cá metidos!
A baralhação de ideias, conceitos e atitudes só pode beneficiar quem não quer fazer nada e quem pensa que pode continuar na senda da inoperância, aproveitando o mau “estado das coisas” para se desculpar, até mesmo justificar com algum ar de competência que encapota a ignorância. Não podemos continuar a adiar o desenvolvimento do local onde vivemos. As futuras gerações lembrar-se-ão de nós com desdém!
Quanto ao Hospital de Lagos, assistimos a um colóquio propositadamente inócuo. O público não estava preparado para explanar ideias, para dizer de sua justiça, e foi essa a falha que o tornou absolutamente desnecessário. Valeu a informação técnica, mas no cômputo final serviu apenas para justificar o constante adiar de uma tomada de posição firme de quem recebeu a incumbência de dar um murro na mesa e dizer “basta”! Estavam lá todos os que poderiam fazê-lo.
As grandes opções do plano — e propositadamente escrevo em letra normal porque de grandes nada têm — revelam uma ambição curta e nada coincidente com as expectativas que a nova governação socialista da CML nos prometeu aquando dos votos. Também a forma se justifica porque vieram ao conhecimento público mais pela mão da oposição social-democrata do que pela governação.
Estranho, muito estranho, que depois de tanto empolamento relativamente à inércia da governação “valentinista”, se assista a um retrocesso confrangedor das grandes opções que são precisas implementar em Lagos. Entre elas, a decisão acerca do edifício a construir para albergar os serviços municipais.
Mais estranho ainda me parece, depois de ler a excelente entrevista da Vice-Presidente da CML, Dra. Joaquina Matos, que tal como eu acha que um PDM é uma ferramenta imprescindível ao desenvolvimento sustentado de qualquer “urbe”. De novo, e mais uma vez, os funcionários da Câmara vão ficar com as suas condições laborais adiadas para novas necessidades eleitoralistas. Para muitos é o culminar de um sonho. Para outros, um período curto que equivalerá a toda uma carreira. Muitos entenderam as razões, mas muitos terão dificuldade em aceitar. Muito menos em desculpar.
Mas venha daí o Pavilhão das Piscinas, que mais não seja para nunca dar razão a Valentim por ter dito que Lagos, com a sua enorme baía desaproveitada e com a falta de apoio inteligente a clubes náuticos, não precisava imperiosamente de uma unidade de piscinas.
Valha-nos São Gonçalo, que a defesa a Damas que não existem é cada vez mais difícil! A autarquia fechou-se em copas, pouco ou nada fez para divulgar as suas ideias quanto ao futuro mais imediato de Lagos. Será porque não as tem? Será porque não atuou atempadamente para cobrir a sua capacidade de endividamento e poder fazer o que prometeu? Será porque não tem capacidade de, como noutras autarquias, pressionar o poder central? Ou será que está “leste do Paraíso” e pensa que já não é preciso cativar ninguém?
Não nos esqueçamos nunca que há Damas que não precisam de defesa. Que sabem defender-se. Que sabem analisar de onde vem o mal que as afeta. Que sabem, também elas, dar o murro na mesa e correr com os poderes que se julgam instituídos.
António Guimarães