Artigos em jornais

Não voto no futebol

2002

Não me lembro se alguma vez fui influenciado pelas campanhas eleitorais, mas desta vez ela serviu para me ajudar a tomar uma decisão há muito adiada. Devo confessar que foi através da campanha que decidi onde não votar. E o meu voto não vai para o futebol, de certeza!

O futebol é para mim um divertimento, uma forma de pensar noutras coisas que não se prendam com o quotidiano. Gosto de ver uma cambada de “gajos” atrás de uma bola e no fim gosto da sensação de vitória do meu Sporting, quando ela acontece. Mas também não levei dezoito anos a sofrer por não ganhar nada.

A política não tem nada a ver com isto. Sofre-se porque o País não está bem e entristece ver os nossos políticos, que nem meninos mimados, dedicados a discutir assuntos de futebol, aos milhões de euros, quando depois vão para a mesa de negociações com sindicatos e associações discutir tostões para dar de comer a famílias inteiras. Sofremos ao saber que outros países avançam no sentido de minorar crises e no nosso pouco, ou nada, se faz.

É isto que está mal e foi isto que se declarou nesta campanha. Estes senhores não têm vergonha de ser governantes num País atrasado e com problemas sociais gravíssimos, mesmo assim dedicam o seu tempo a discutir assuntos menores.

Nesta bagunça dos estádios — o das Antas, do Benfica, do Boavista, do Sporting e de outros — tenho achado estranho ninguém referir que o único estádio que está a ser construído no rigoroso cumprimento do estabelecido é o do Parque das Cidades, no Algarve. Que eu saiba, a única referência mediática feita a este “feito” histórico foi há umas semanas na Focus. As televisões, pelo menos nos horários nobres, nem uma referência fizeram. Nem ninguém cá vem ver como se orçamenta uma obra e se cumpre o que está estipulado.

A falta de conhecimento e o notório desinteresse desta malta em se informar ficou expresso quando o dirigente do Boavista afirmou ser o seu estádio o único que está a cumprir com tudo. Ou está doido, ou não sabe fazer contas, já que no mesmo estudo realizado pela Focus também lá andam milhões de escorregadelas.

O Euro 2004 é para ser feito, já que se abalançaram a fazê-lo. Mas a discussão deveria ser sobre a razão que levou o governo a interferir numa organização desta natureza, quando tinham a lição de outros países que não se envolveram, a não ser na cedência dos estádios municipais ou nacionais. Mais nada. Portanto, este assunto devia ser tratado não ao nível do Estado ou do governo, mas sim ao nível privado e nunca ao nível do Presidente da República.

Mais uma vez o Algarve vai dar uma lição ao País, mas essa lição vai ser obscurecida e silenciada, porque não interessa que se cumpra. Não fica bem e estraga as contas aos outros.

Quanto ao voto e à decisão que tomei, tenho que agradecer a Ferro Rodrigues e Durão Barroso. É que a bipolarização é realmente um dos grandes males da nossa sociedade política. É a tendência para o tudo ou nada que está errada. Ao ouvir outros partidos de menor dimensão, fica-nos a certeza de que há gente muito melhor do que a que o PS e PSD nos dão. Pelo menos estão preocupados com os baixos salários da generalidade dos portugueses, com a falta de solução nas listas de espera dos hospitais, com as parcas acessibilidades da nossa região — nunca com o futebol.

Também não quero ver o meu País, ao nível político, misturado com um futebol obscuro e rasteiro e com dirigentes que não me merecem qualquer tipo de respeito. Não voto no futebol, custe o que custar, e tal como com o meu Sporting, não vou sofrer por perder.

Não quero deixar de me congratular pela decisão do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. Pelo menos uma vez ele me alegra. Diz ele que se o PSD ganhar as eleições não representará Portugal, nem particularmente nem oficialmente. Pois pela parte que me cabe só tenho a agradecer tão nobre e democrática decisão.

Apesar de por duas ou três vezes ter tentado ler alguma coisa de Saramago, nunca consegui chegar ao fim, razão pela qual não entendi as razões que levaram este homem ao Nobel da Literatura. Enumerar escritores portugueses contemporâneos que estão a um nível muito superior ao de Saramago é cada vez mais difícil, mais agora que ele se revelou, efetivamente, o que é. Já repararam nas similitudes que existem entre as posições de Saramago e Pinto da Costa? Felizmente que nunca o li. Assim fico mais descansado. Obrigado Saramago, ou será que devo dizer “Gracias”?

António Guimarães