A mudança
Março 2002
Apesar de nos nossos dias ser corrente a reflexão sobre uma enorme diversidade de assuntos, por parte daqueles que se auto intitulam “analistas” disto, daquilo ou daqueloutro, nem sempre a abordagem que fazem é defeituosa. Mas existe um problema adjacente a este tipo de análise: a falta de conhecimento adequado. Neste pressuposto, assumindo que não tenho conhecimento adequado do assunto que vou tratar, mas com conhecimento de causa na área, arrisco o comentário.
Há cerca de um ano disse a José Valentim que deixasse o Gabinete, descesse as escadas e sentisse de outro modo a vontade das gentes, ouvisse as conversas e não só os elogios, olhasse para nós com outros olhos. Recomendação que não foi ouvida, tendo sido até objeto de uma resposta algo agressiva por parte do aparelho social-democrata. Nessa altura, as conversas de corredor passaram para o café, indiciando um forte descontentamento relativo às atitudes e métodos utilizados. Os resultados estão à vista.
A ter em conta as críticas que durante a campanha eleitoral esta equipa fez à gestão interna de Valentim, temos que concordar que ainda não é altura para mudanças de vulto. Muito menos que a “mudança” produza os efeitos necessários em tão pouco tempo. Mas na altura do voto, os lacobrigenses apostaram numa mudança que alterasse tudo quanto consideravam estar mal. Apostaram numa cara que lhes transmitiu confiança, competência, experiência, mas acima de tudo, a dignificação do exercício do poder nas relações intra-municipais, tão amplamente criticada pelos novos eleitos.
Há dias tive a oportunidade de assistir a uma conversa entre um grupo de pessoas, a meia voz, comentando uma recente posição dos novos autarcas. A conversa era acerca da forma como foi tomado conhecimento das necessidades de cada departamento, no que diz respeito aos recursos humanos. A “meia voz” não foi suficiente para que eu não conseguisse ouvir alguns pormenores sobre o tema. Mas não foram os pormenores que me chamaram a atenção. O que me intrigou foi o facto de já não ter sido a primeira vez que senti algum descontentamento social, sustentado em factos, relativamente aos novos detentores do poder.
À nova gestão cabe, entre outros, ouvir quem de direito sobre assuntos internos, numa atitude correta, já que são gestores de uma autarquia que pretendem transformar para estilos mais modernos e melhores. Acontece que ultimamente sou confrontado, nas tais conversas de café, cada vez mais e numa frequência nada animadora, com situações que não entendo nem considero fruto de inexperiência. Há um surgimento de posições adversas, principalmente críticas, à nova governação. Estas posições são, inexplicavelmente, oriundas de uma área política/opinativa que deveria dar tempo ao tempo, mas que já se manifesta com uma abertura preocupante.
Se é certo que a nova equipa ainda tem muito pouco tempo de exercício do poder, certo é também que é muito cedo para começarem as críticas. Que as haverá sempre, concordo, seja quem for que para lá vá. No entanto, pensei que elas fossem colocadas no tempo de uma forma mais coincidente com o acumular de experiência. Sempre pensei também que viessem primeiro de uma faixa da oposição perfeitamente definida. O que não é uma realidade.
Nota-se que existe uma nova ordem social na governação, ténue mas eficaz, no sentido em que se pretende o melhor possível no mais curto espaço de tempo possível. No entanto, não entendo as razões que levam os comentários a estabelecer, ainda e sempre, paralelos com José Valentim.
Ao se pretender adaptar o funcionamento da autarquia a conceitos de gestão mais modernos, com melhores valências, onde a ligação entre os órgãos eleitos e a estrutura existente traga proveitos para uma gestão adequada dos recursos humanos, há um fator que não pode ser esquecido: a confidencialidade das opiniões expressas no âmbito de qualquer consulta. Esta confidencialidade não deve ser colocada de lado ou preterida em benefício de uma exagerada dependência técnica e de uma adequação política à forma como se tomam as decisões. Se não foi produzida uma corrente privada entre quem opinava e quem analisava, poder-se-ão ter perdido os proveitos da consulta, consequentemente a análise peca por defeituosa.
As mudanças são sempre complicadas e muitas vezes o que é feito com boas intenções e corretamente surge-nos como um erro atroz. Neste caso, para quem comenta, é sempre mais fácil abordar os assuntos de forma radical: dizer mal e arrumar a questão assim. Também acredito que andar sempre à procura de consensos não é a melhor forma de resolver problemas. Que não se esqueça ninguém do exemplo de Guterres: utilizou esse estratagema, com os resultados que estão à vista. É preciso não esquecer também que Cavaco fez ouvidos moucos a críticas construtivas.
Para assumir posições de risco é necessário estar-se muito seguro dos resultados. Mas neste caso, primeiro que tudo, é necessário que não se atue ao nível autárquico copiando modelos empresariais. Estes são portadores de conflitos insolúveis ao nível do funcionalismo público: recursos humanos com um elevado grau de especificidade, que só mesmo especialistas conseguem manobrar.
Se razões há para se considerar feio ouvir as conversas dos outros, razões há também para as ouvir quando elas versam temas de interesse geral, mais ainda quando acontecem em lugares públicos, saindo desde logo do âmbito restrito aos intervenientes. Pode-se também esquecer a existência de comentários externos, supostamente pouco abalizados, mas isso não impede que eles se produzam.
António Guimarães