Já vendemos o Sol, a Praia, e agora vamos vender o quê?
2002
É um dado adquirido que o Algarve se virou para as atividades económicas relacionadas com o turismo, talvez por ter abdicado da indústria das pescas e até mesmo da tradicional produção e comércio de frutos secos, que parece ter os dias contados. Mas será que tudo está bem num dos setores de maior crescimento da economia nacional, onde o Algarve é líder?
Dados divulgados em 2001 dizem que o crescimento do turismo é mundial e deverá quase triplicar nos próximos anos, sendo 2020 apontado como o ano para atingir esse objetivo. Relativamente ao Algarve, permito-me discordar, baseando-me nos anúncios de fortes investimentos na região:
Belmiro de Azevedo aposta em criar quase uma nova cidade em Lagos.
Em Alvor prepara-se um novo projeto de grande dimensão.
Vale do Lobo prepara-se para duplicar a sua capacidade.
Cerca de 19 novos campos de golfe vão ser construídos.
Vilamoura já apresentou o projeto de ampliação.
Marinas, hotéis e blocos de apartamentos multiplicam-se.
Há cerca de dois anos foi constituído um Comité especial para a elaboração do Código Mundial de Ética do Turismo. O projeto de regulamento prevê qualidade de serviços, formação específica, ambiente, construção e urbanismo. Lê-se no texto preparatório: “Os atores do desenvolvimento turístico e os próprios turistas devem ter em conta as tradições ou práticas sociais e culturais de todos os povos, incluindo as das minorias e populações autóctones, reconhecendo a sua riqueza...”.
Quanto a mim, isto quer dizer que há que considerar os interesses da comunidade recetora. Mais adiante lê-se: “As atividades turísticas devem conduzir-se em harmonia com as especificidades e tradições das regiões e países de acolhimento, observando as suas leis, usos e costumes...”.
Em muitas paragens só determinados interesses são considerados: os económicos e financeiros, tanto para o investidor como para a autarquia. Importantes, sem dúvida, mas não únicos. Entre entidades oficiais e privadas ainda não se atingiu uniformidade de ideias. Limitam-se a propostas soltas, conforme conveniências. Além disso, os líderes de organismos oficiais têm mostrado incapacidade de se distanciar das obrigações partidárias.
O turismo, atividade associada ao repouso e descontração, assume nos meses de verão uma condição contrária aos princípios que deviam regulamentar a sua existência. O caos acontece por deficiente organização das autarquias, ao permitirem ocupações de espaço legais mas irracionais. Ordenamento do território, ambiente e urbanismo são frequentemente esquecidos.
Alguns autarcas desculpam-se com o poder central e a falta de legislação adequada. Mas a falta de conhecimento técnico é preocupante: não existe planeamento regional adequado, nem conjugação de esforços entre entidades oficiais e privadas. A época da improvisação e dos “patos bravos” passou. Cabe às entidades regionais criar estruturas de aconselhamento e fiscalização, com extensões nas autarquias, para que os empresários invistam com confiança e segurança, assegurando o respeito pela identidade local.
O desenvolvimento turístico algarvio só pode ter sucesso numa perspetiva de salvaguarda do ambiente, dos recursos naturais, da identidade local e da legalidade. Assim haverá crescimento económico e social sustentado, capaz de satisfazer equitativamente turistas, empresários e populações recetoras.
O Algarve fez com que o turismo tivesse enorme importância na economia nacional. Atualmente representa cerca de 8% do PIB e 10% do emprego direto e indireto. Estes dados evidenciam os cuidados que deveriam ser tomados para precaver contra os perigos de se deixar ao abandono tão importante setor.
No contexto europeu temos atributos invejáveis que nos posicionam no topo da lista de destinos apetecíveis. Ficamos contentes com os prémios, mas muito tem sido esquecido, parecendo que só estamos interessados em “vender” sol e praia. Só que isso já fizemos. E agora, vendemos o quê?
António Guimarães