Artigos em jornais

Ignorar a existência, a melhor atitude

Janeiro 2002

Numa atitude lamentável no quadro da moral e do sentido de responsabilidade cívica, os participantes dos programas “Big Brother” e “Bar da TV” fazem-se pagar para tentarem a sorte no difícil caminho da fama, pretendendo fundar uma nova classe de pessoas que singra na vida à custa de nada fazer.

Nenhum dos participantes tinha escrito um livro de sucesso, sido cantor, locutor de rádio ou TV, tocado algum instrumento musical, sido jornalista ou político. Nada. Usaram-se destes programas, fizeram-se pagar e aproveitaram o facto de tudo se passar em frente às câmaras de televisão para alcançar notoriedade.

Mesmo admitindo que tudo está dentro da lei, surge a dúvida: existe ou não uma lei que proíbe a emissão de imagens e som que violem direitos, liberdades e garantias fundamentais, atentem contra a dignidade humana e invadam a privacidade do cidadão? Se existe — e sei que sim — aquela conversa relatada pelos média foi uma clara violação.

Reconheço que devia ter visto para comentar, mas também reconheço que a SIC se tem revelado uma estação de TV muito fraca para os meus gostos. Prefiro a RTP2 e os canais de cabo. Esqueçamos a SIC e passemos aos conteúdos dos programas: nota-se claramente que os apresentadores encaminham para o conflito entre membros da família, insistem em arranjar namoricos em frente ao namorado, usam imagens de carícias para gerar reações de conflito. Aqui também há infração da lei.

O uso e abuso das relações familiares dos participantes é aberrante. Tudo se passa dentro do seio da família, dos namorados, dos beijos e até do sexo. A apresentadora Teresa conduz a sua atuação levando familiares a serem confrontados com imagens íntimas dos seus filhos, provocando conflitos latentes. Curiosamente, quando é falada noutros meios, não gosta que se fale da sua intimidade.

Poder-se-á dizer que é com consentimento dos participantes, mas aqui surge o problema mais grave: muitos psicólogos já se pronunciaram contra este tipo de programas, afirmando que infringem direitos elementares à privacidade e levam os participantes a estados psíquicos que não controlam. Alguns até questionam se estas pessoas estão equilibradas. As estações defendem-se dizendo que têm psicólogos nas equipas, mas outros colegas questionam o estado psíquico desses mesmos profissionais.

É lamentável que não se possa cortar a emissão quando não estão assegurados os direitos fundamentais dos cidadãos. É lamentável que os responsáveis não sejam julgados. Mais uma vez culpo Rangel, da SIC. Já lhe desculpei muita coisa por ter produzido uma reportagem sobre droga, mas nunca pensei que chegasse tão longe: fazer os pais da Margarida esperar horas para falar com a filha, apenas em horário nobre, é asqueroso. Atitude lamentável, que só pode vir de uma mente diabólica, coadjuvada por um brasileiro que pensa poder fazer em Portugal o que não lhe permitiram no país de origem.

É assustador o poder que estas pessoas têm e a impunidade de que gozam. É assustador porque já existem empresas dedicadas exclusivamente a contar quem está a ver. É assustador porque se está a transformar numa indústria dominadora, cujas capacidades de controlar os cidadãos não estão definidas.

A sociedade mundial está cansada da qualidade dos programas televisivos ditos normais, cansada das americanadas enviadas em forma de filme. É então necessário transformar o gosto dos espectadores, rentabilizar as estações de TV. Nada melhor, pensam eles, do que transmitir programas rascas, atentadores da moral que procuramos transmitir aos nossos filhos.

Tenho mantido uma atitude frontal contra este tipo de programas, não acedendo aos canais. Mas, confrontado com os comentários, senti-me impelido a ver. Constatei que a minha indiferença relativamente às estações citadas era aquilo que elas mereciam de mim enquanto utilizador de televisão: ignorar a sua existência.

António Guimarães