Artigos em jornais

Há males que vêm por bem

Julho 2002

Valentim Rosado decidiu, a bem de uma virtual contenção de despesas, acabar com as assinaturas dos jornais regionais. Na altura ficaram por explicar as razões que o levaram a tomar esta decisão, mas segundo o próprio, decidiu não assinar apenas cinco ou seis títulos, num espectro de 46. Não foram, portanto, razões de ordem financeira que motivaram esta posição: houve mão ideológica, que terminará, segundo ele, na assinatura de todos os títulos regionais. Acredito que sim.

Fica a dúvida se, entretanto, para se manter informado, os comprará na banca dos jornais, atitude que lhe conferirá uma posição confortável, já que poderá dizer: não li. Mas no essencial, este assunto veio alertar para a necessidade de se efetivar um apoio consistente à imprensa regional, que não passe por subsídios amorfos e isolados, mas que incentive a leitura e a cativação de novos consumidores, começando por poder dizer: eu leio todos!

Não será o cancelamento das assinaturas que colocará em risco a continuidade dos jornais, mas a atitude indiciou que não se está a par das necessidades do setor, nem se tem a perceção de que o apoio é necessário a todos os níveis. Não é fechando porta atrás de porta que se apoia.

Será que o Sr. Governador pensou que, ao cancelar as assinaturas, o setor empresarial e os agentes económicos poderão também concluir que, se não vale a pena para o Governo, a eles também não interessa? Fica a dúvida, mas as pequenas atitudes podem produzir grandes feitos.

Toda a imprensa regional vive situações de grande asfixia financeira e em muitos casos sobrevive de muita carolice e de grande amor à profissão. São inúmeros os jornalistas que levam para casa ordenados vergonhosos, quando os levam. São inúmeras as empresas que se confrontam diariamente com situações de tesouraria perfeitamente incríveis.

Um dos males que assola este setor é o manifesto desinteresse dos postos de venda em projetar os títulos regionais ao nível dos nacionais. Os jornais regionais são colocados escondidos e desvalorizados. Em contraponto, Espanha vive uma situação diferente: é frequente encontrar em grande destaque nas bancas os jornais regionais, quase sempre ao mesmo nível dos nacionais. Isso coloca-os no mercado publicitário em posição de ser apetecível investir neles. Além disso, as empresas proprietárias dos títulos são estáveis e organizadas.

Às entidades oficiais, reguladoras de uma vida social e económica saudável, compete aperceberem-se das situações que vivem todos os setores da vida regional. Não compete substituírem-se aos empresários, mas devem avaliar em que medida podem contribuir para uma vida empresarial saudável.

Foi neste contexto que se realizou recentemente o I Encontro de Imprensa Regional Algarve-Andaluzia, com a presença do ministro da tutela. Resultaram algumas constatações interessantes e alguns jornalistas procuraram alertar o ministro para os factos que poderão estar na base dos problemas, abrindo luzinhas no cérebro dos nossos políticos.

Foram expostos males que assolam o setor, na ótica dos profissionais:

Excessiva dependência dos subsídios

Fraca penetração no mercado publicitário

Falta de diálogo entre os órgãos que operam na região

Ficou também no ar a certeza de que existem títulos a mais, uma das razões apontadas para o descrédito da imprensa regional no mercado publicitário. Este excesso resulta da falta de diálogo e da inexistência de uma entidade reguladora eficiente.

É necessário definir interesses e objetivos fundamentais. Faz falta que os convénios entre órgãos de comunicação social sejam um facto, também a nível internacional. Faz falta uma movimentação de interesses entre todos os operadores, no sentido da criação de uma associação que produza, por exemplo, um jornal diário algarvio forte e interventivo. Uma associação deste tipo poderia penetrar com maior capacidade de concretização no mercado publicitário, passando definitivamente à posição de recetor de publicidade e não de “mendigador”.

Os grupos espanhóis presentes no encontro mostraram-se fortes, com estruturas empresariais competentes, em contraponto com a situação algarvia, onde muitos jornais têm apenas um jornalista e são empresas desajustadas da realidade, sem objetivos e com um pé fora do mercado logo de princípio.

António Guimarães