A fragilidade do nosso sistema político e partidário
14 de Janeiro de 2002
Há uns dias, sentado numa esplanada com amigos espanhóis e portugueses, peguei num jornal do país vizinho e entretive-me a ler as “gordas”, enquanto os meus amigos conversavam sobre o Euro e as consequências para o quotidiano. Deparei-me com um artigo que comparava países da CE em diversos setores da vida europeia. Não me espantei por ver Portugal em último lugar na maioria dos gráficos. O que me espantou foi saber que, apesar da elevada taxa de sinistralidade nas estradas, somos o país que há mais tempo não renova a sinalização — dizem os espanhóis que há estradas sem alterações há 26 anos.
A conversa à mesa já tinha enveredado pela política. Falava-se da forma como Guterres abandonou o barco. Era consensual que a queda de um primeiro-ministro nunca agrada, nem mesmo à oposição, pois indica que algo vai mal, não só no governo, mas no país. Discutia-se também a capacidade dos políticos em governar efetivamente.
Veio à baila a declaração de Aznar de que não se recandidata. Para os espanhóis, é natural: há muitos políticos capazes de governar. Para nós, portugueses, é confuso, já que não estamos habituados a ver caras novas. Temos sempre os mesmos há muitos anos. As escolhas são poucas e revelam invariavelmente pouca capacidade para nos deixar descansados.
O passado do PSD dá garantias ao país — analisada a história — de que é o partido ideal para tirar o país da crise e levá-lo a crescimentos acima da média. Mas será eternamente necessário haver um partido salvador da Pátria? E quanto às pessoas? Durão Barroso não aproveitou o tempo de oposição para demonstrar capacidade de decisão e motivar confiança. Nem sequer conseguiu manter-se como líder da oposição em todo este tempo. Deixou que as atitudes mais mediáticas fossem lideradas por Paulo Portas, o que lhe poderá custar caro.
Analisado o espectro político nacional, verificamos que nos foi vedado o estatuto de calma política. Não temos uma rotação normal, sem atritos, sem sentir-nos enganados por uma classe que devia resguardar os interesses nacionais. Será que não há no PS alguém, não comprometido com o governo, que vire a página negra do partido e ofereça uma verdadeira opção? Será que o PS só tem para oferecer mais do mesmo?
Ferro Rodrigues, a escolha proposta pelo PS, começou mal. Primeiro disse que sim, depois que não, depois afirmou que o governo não foi tão bom assim, agora já diz que está tudo bem e que vai continuar com a mesma política desastrosa. Para mim, que não esqueci o silêncio no caso do orçamento aprovado com o voto de Daniel Campelo, não é uma escolha que satisfaça a maioria dos portugueses, nem sequer a maioria dos socialistas.
Os governantes — Ferro Rodrigues incluído — tornaram pouco digna a atitude de ser Deputado da Nação ao pactuarem no caso “limiano”. Não souberam dignificar a sede da nossa democracia e reincidiram. Sempre pensei que quem viesse substituir Guterres faria uma profunda análise aos sentimentos dos portugueses e ao que eles querem. Mas só vejo políticos a olhar para dentro de si próprios ou para o vizinho do lado, pouco interessados com aquilo que sente quem vota.
É essencial ser humilde, reconhecer os erros e ter coragem — hoje mais do que nunca — de olhar para fora da janela dos gabinetes.
António Guimarães