Artigos em jornais

Ferro na RTP

2002

Apesar de alguns fatores negativos — que enunciarei — não deixei de ficar bem impressionado com a entrevista de Ferro Rodrigues à RTP1.

O primeiro fator negativo foi o paralelismo que o candidato a Primeiro-Ministro tentou fazer entre o défice alemão e o português. Parece-me ridículo que tenha tentado comparar o que se passa na Alemanha com o que se passa cá. Só pode ter sido porque queria utilizar as duas situações para cativar indecisos.

O segundo foi o embaraço que denunciou quando o tema chegou a António Guterres, não conseguindo disfarçar que não lhe agrada falar do assunto. Se a posição que assume é de distanciamento — e isso é agora claro — acho que teve ali a oportunidade suprema de o fazer. A verdade é que não o fez.

O esclarecimento acerca dos genéricos ficou feito, e bem. Um grande ponto a favor. Soube ser claro acerca da proposta de obrigatoriedade de prescrição pelo nome genérico ou pelo princípio ativo dos medicamentos. Uma medida popular que surge na altura em que o seu adversário avança com uma muito impopular: o aumento do IVA. Ferro Rodrigues aqui marcou muitos pontos a seu favor, já que inteligentemente não avançou com paralelismos de propostas em relação à eficácia em termos de cativação de eleitores.

Lançou farpas a Durão Barroso na altura certa e no tempo certo, sempre com o argumento de compatibilizar o que se promete com o “Pacto de Estabilidade e Crescimento” apresentado em Bruxelas. Muito bem, já que denota honestidade e consciência política. Gostei.

Nota também positiva foi o distanciamento que assumiu relativamente a qualquer compromisso com o PCP, preferindo o apelo ao “voto útil”. Não quer dizer que não venha a fazê-lo, mas deixou claro que quer governar sozinho com uma maioria estável.

Pouco mais haverá a comentar, a não ser que fiquei melhor impressionado. Na convenção, Ferro Rodrigues deixou-me com o sentimento de que não estaria muito crente nas propostas que tem para resolver “pontos quentes”, talvez fruto do nervosismo compreensível de quem tem novas responsabilidades.

António Guimarães