Artigos em jornais

E vão dois...

Setembro 2002

Talvez assustado com o que ouvi o Governador do Banco de Portugal dizer acerca do estado da economia portuguesa, durante os primeiros dias deste ano tenho “passeado” pela grande maioria dos jornais económicos, lendo análises e artigos de opinião de diversos economistas. Fiquei realmente preocupado.

Exceptuando alguns artigos, onde se reconhece uma linha de pensamento mais à esquerda, é unânime que o País atravessa uma crise, comparada até por alguns especialistas à de 1983. Esta área de opinião considera que as questões partidárias deveriam ser postas de lado — opinião que partilho.

O congresso do PP do fim de semana deu-me uma certeza: é um partido acabado, sem qualquer interesse no espectro político nacional e completamente alheado da realidade. Também o PCP, através da reunião do Comité Central, revelou que continua a ser portador de uma ideologia ultrapassada. O partido não acompanhou os tempos, não se modernizou, fechou-se dentro de si próprio e teima em não sair de um sonho idealista que já provou, noutros locais do mundo, não passar disso mesmo.

Não estão, portanto, PCP e PP aptos a integrar qualquer tipo de governo de coligação, porque não oferecem garantias de democraticidade de ações. O PCP porque não aceita opiniões divergentes das suas; o PP porque tem militantes que se assumem como “palhaços” e outros que querem resolver assuntos à pancada. Estes factos não se coadunam com a ação governativa.

A ser verdade o que os líderes dos “dois grandes” dizem, as próximas eleições vão dar-nos um resultado idêntico a muitos outros: um deles vencerá e teremos outra vez mais do mesmo. Mas terá que ser mesmo assim?

O povo português navega, na sua esmagadora maioria, em “águas” do bloco central, isto é, entre PS e PSD. Mais importante que a (des)convergência ideológica entre estes dois partidos é o interesse nacional. Ambos são defensores da Europa, dos novos conceitos de mercado, da democracia e da nova economia — fatores suficientes para que nesta fase se unissem num esforço de reabilitação da nossa imagem além-fronteiras e de salvação dos valores essenciais à convivência europeia.

O Partido Socialista caracteriza-se por ter sido fundador da democracia portuguesa e por ter lutado contra o fascismo e comunismo. Não pode aceitar qualquer ligação a um partido que renega um dos principais fundamentos da democracia: o direito à opinião. O PCP, ao expulsar ou sequer ponderar expulsar membros que ousaram refletir publicamente, exclui-se de qualquer processo democrático de governação. O PSD, por sua vez, ao fazer uma aliança com o PP, renega valores que defende e que não coincidem com os dos centristas.

Uma aliança entre PS e PSD seria a hipótese que maiores proveitos imediatos traria. Apesar de sabermos que durante uns anos não haveria alternativa e que os valores fundamentais da democracia estariam em risco, todos sabemos que ela só por si é um conceito vasto e quem a define são as pessoas, as ideias e as vontades. PS e PSD têm obrigação de dizer aos eleitores o que se passa e se é viável governarem em bloco.

É pouco provável que, ganhe quem ganhar as próximas eleições, exista ou não maioria absoluta, se modifique um dado essencial do nosso sistema partidário: a bipolarização. Neste caso, ao irem um contra o outro, renovam-se as dificuldades e dá-se continuidade a um processo de decadência que poderá colocar o País numa situação irreversível.

Daqui decorre que deviam entender-se sobre um conjunto de medidas de fundo, a médio e longo prazo, como única forma de estabilizar a vida nacional, recolocar a economia nos parâmetros europeus, tornar o investimento apetecível, repor a confiança nos agentes económicos e estabilizar a democracia para que sobreviva à crise.

Mas ao ouvir Ferro Rodrigues e Durão Barroso, parece que vamos caminhar para um estado de crise ainda mais profundo, onde as questões partidárias agravarão o estado da economia nacional. Isto porque todos sabemos não ser possível o acordo, já que ambos prometem o mesmo que ontem e antes de ontem. O que ainda não sabemos é qual a situação real do País.

António Guimarães