"Equilíbrio orçamental" é preciso
18 de Fevereiro de 2002
Um Almirante manda regressar navios a terra porque não há dinheiro para as missões normais de vigilância. Vai daí, o ministro da tutela diz que há e manda regressar os navios ao mar. Depois, um ministro afirma que o orçamento das Forças Armadas é adequado e maior, percentualmente, que no resto da Europa. Um General responde chamando-o ignorante.
Antes disto, o comandante da GNR disse que o governo enganou os portugueses com promessas falsas. Desta vez, os governantes calaram-se e aceitaram ser chamados de mentirosos. Agora, um chefe militar anuncia que vai divulgar documentos privados para comprovar que o governo não fez o que prometeu e mentiu. Se isto não é prova do enorme desnorte deste governo do PS e da necessidade de colocar os pontos nos “ii’s”, não sei o que será.
Apesar da CE não ter dado o tal “alerta rápido”, o Ministro das Finanças teve o desplante de vir a público dizer que Portugal saiu credibilizado após a colocação na gaveta do alerta a Portugal e Alemanha. O ministro respondeu da forma habitual, com o seu ar prepotente de quem sabe tudo, não sabendo nada, concordando com tudo e não concordando com nada, revelando-se incapaz de fazer seja o que for.
Será que este senhor não sabe que não existe paralelo entre o que se passa em Portugal e na Alemanha? Que o simples facto de se ter falado nisso não é nenhum crédito para o País? Será que ainda ninguém lhe disse que a Alemanha atravessa uma fase má devido a uma recessão económica e que nada tem a ver com o descontrolo da despesa pública que estes senhores implementaram em Portugal?
Nove economistas, entre os quais vários antigos ministros das Finanças e ex-governadores do Banco de Portugal, apelaram aos partidos candidatos às eleições legislativas para que promovam um “rápido e sustentável equilíbrio orçamental”. Fazem 17 recomendações ao futuro governo que sair das eleições antecipadas, seja ele qual for. Manter “as finanças públicas dentro dos necessários princípios da disciplina e do rigor” e advertir os partidos para a grave situação do País.
A meu ver, a advertência insere-se na possibilidade de um cenário argentino se repetir em Portugal. Entre as medidas aconselhadas, destacam-se as que se referem ao funcionalismo público — uma clara referência ao favoritismo implementado por Guterres aos seus parceiros de cor, os famosos “Jobs for the Boys” e a criação de institutos obscuros e ilegais, que só serviram para nomear presidentes incompetentes e ávidos de chorudos ordenados.
Embora os dois líderes partidários já tenham manifestado abertura a uma união de esforços na recuperação da economia nacional, achei ridículo que Ferro Rodrigues impusesse condições. Então o candidato socialista a PM não fez parte dos sucessivos governos que arrastaram o País para esta situação? Onde está a coragem que apregoa nos placards? Ou esta coragem é só para aqueles que não sentem vontade de voltar a colocar a cruz na rosa? E a seriedade? É só para o PSD?
Parece que só mesmo às altas esferas socialistas a situação do País passa ao lado, teimando em fazer passar uma imagem de acalmia irreal. A importância do documento divulgado pelos economistas não acaba nas assinaturas, nem nas pessoas: é um importante alerta, talvez até um cartão vermelho, a todos aqueles que nos têm governado. Também o “alerta” que não chegou é importante, porque a crise já é do conhecimento de todos, menos dos atuais senhores do PS.
Durão Barroso admite formar um Governo de Bloco Central em Portugal com o PS apenas em caso extremo. Será que não seria preferível evitar o caso extremo? Digo eu, mas se calhar estou enganado! Ferro Rodrigues está disposto a fazer um pacto com o PSD, caso os sociais-democratas recusem políticas demagógicas, para que em Portugal seja aplicado um “rápido equilíbrio orçamental”. Continuam as frases de estadão que no fundo não querem dizer nada e são um constante adiar da solução. Digo eu, mas se calhar oiço mal!
António Guimarães