Entre Washington e Joanesburgo, o 11 de Setembro
Setembro de 2002
Há uns dias, em conversa com um americano ligado às atividades informáticas, uma sumidade segundo me disseram, ele confidenciou-me que até há bem pouco tempo não sabia da existência de um país chamado Portugal. Ou antes, sabia, mas nunca se tinha preocupado em saber onde ficava. Ria-se muito ao dizer isto. Achava maravilhoso ter “descoberto” Lisboa, uma cidade acolhedora, maravilhosa, com gente simpática, onde até podia falar “americano” que todos entendiam. Adiantou-me, em segredo, que até esteve convencido de que Portugal fosse uma província espanhola. Riu-se muito com esta piada.
Não fiquei admirado com tamanha ignorância. Para ele, o México era um país que dava montes de chatices e só sabia que de lá vinham muitos “espanhóis” borrar as estatísticas. Não sabia também que o Canadá era um país onde se falavam duas línguas. Rimo-nos muito com estas piadas porque de outras coisas não podíamos falar na ocasião.
Este americano sabia exatamente os nomes das capitais dos Estados dos EUA, os respetivos governadores, senadores e secretários. Sabia tudo do seu país. Ficou chocado quando lhe disse que eu não sabia o nome do vice-presidente dos EUA, mais ainda quando lhe disse que não achava importante saber. Quando o confrontei com a sua ignorância em relação ao resto do mundo, achou que eu era parvo. Para ele, só interessava Paris e Londres.
Foi este mesmo homem que me confidenciou ser sua opinião que os países europeus deviam unir-se e lutar contra o terrorismo, formando uma espécie de Comunidade Europeia militar, única forma de tornar os “states” ainda mais fortes contra os terroristas que lhes deitaram abaixo as torres.
É este o tipo de americano que compara o 11 de Setembro ao nascimento de Cristo, havendo até quem diga que o mundo mudou radicalmente no dia seguinte e que foi o acontecimento mais importante de sempre. Explicar porquê, não sabe. Mas é claro que mudou. Radicalmente não me parece, relevante sim, porque mostrou que eles são vulneráveis e trouxe para a ribalta a importância de se saber porque razão há quem conteste as atitudes americanas no mundo.
Quanto à comparação, acho que é de uma arrogância sem limites, própria de quem levou uma lavagem fenomenal e nem admite a preocupação por não ter sabido há mais tempo que Portugal existe, ou que razões levaram um povo a um ato tão radical como atacar inocentes. Penso que não passa de mais uma bazófia americana para se fazerem valer enquanto mártires de uma catástrofe que efetivamente são.
O comum americano não sabe terem sido eles a começar a lançar aviões contra as torres. A informação que lhes chegou não lhes permite raciocinar convenientemente. Não se importam com o que se passou antes, o que importa é o depois do 11 de Setembro. Ao ligarmos a CNN, ou outra estação americana, percebe-se a diferença: a notícia à americana é repleta de adjetivos, com opinião do locutor, sem imparcialidade.
Cada vez mais me convenço que os norte-americanos são um povo manipulado, que pensa em função de uma doutrina engendrada pelos jornais e televisão. Um povo dominador, onde a força impera e a inteligência escasseia, que se considera dono do mundo, do conhecimento, da ciência, da literatura, das artes e da bondade. Para eles, o 11 de Setembro foi apenas um ataque de terroristas a quem nunca fizeram mal.
Não sabem sequer quem são os terroristas que os atacaram, não lhes conhecem as raízes, os sentimentos, a cultura. Só sabem que são uns tristes de túnica. Não percebem que foram espoliados das suas culturas e formas de estar na vida. Enfim, cultura à americana, a mesma que tornou possível o 11 de Setembro, a mesma que ofende povos subjugados.
O 11 de Setembro é, inevitavelmente, uma data a recordar, uma data horrível que trouxe a certeza de que está tudo errado na política norte-americana. Mas não deve ser comparado com nada além dele próprio. Qualquer comparação, mesmo com o nascimento de Cristo, só pode vir de quem tem um nível cultural defeituoso e não quer ver mais longe que as suas próprias fronteiras. Só mesmo para um país que boicota a Cimeira de Joanesburgo, como boicotou a do Rio, só mesmo para um povo que não sabe sequer que em Joanesburgo se discutiu, talvez, o prenúncio do fim da humanidade.
António Guimarães